Tag: ancestralidade

  • Ainda estou reconstruindo o hábito de escrita blogueira. Um dos pontos mais delicados desse processo é largar mão do perfeccionismo, do impulso natural de querer escrever um grande artigo quando surge um novo interesse. Não, aqui eu quero fluir registrando o que me chama atenção de uma forma desapegada. Não dá pra abraçar o mundo todo e se aprofundar em tudo (!!!).

    Portanto, hoje apresento um tema que me encantou nos últimos dias. Um pouco do que pesquisei a respeito, de forma organizada, mas despretensiosa. Publicar no blog é uma forma de registrar e seguir, me liberar para revisitar o assunto no futuro, com calma, se um dia quiser aprender mais. Além, é claro, de ter o prazer de trocar com outras pessoas.


    Recentemente, mudei de serviço de streaming de músicas e estava transferindo minhas playlists de uma plataforma para a outra. Acabei passando horas ouvindo músicas e revisitando umas playlists antigas, o que foi bem divertido. Durante o processo me deparei com canções cantadas por Clementina de Jesus e Dona Ivone Lara que decidi incluir na minha playlist de pontos de pretos-velhos, por sentir uma associação muito clara com a linha das almas na umbanda.

    Meu encantamento por esses pontos foi tão grande que precisei dar uma pesquisada sobre eles, o que me levou ao encontro da história do jongo. Sinto em dizer que, infelizmente, desconhecia tanto o nome jongo quanto sua tradição cultural. Mas tenho um bocado de familiaridade com sua herança pelo contato com os pretos-velhos em minha experiência com a religiosidade umbandista. Foi por essa familiaridade que fui capaz de reconhecer, dentre álbuns de samba, esse ritmo diferente profundamente conectado aos pretos-velhos.

    Tendo em vista o tamanho da importância do jongo para a nossa cultura enquanto pai do samba e irmão de muitas práticas afro-brasileiras, acho importante louvá-lo. Minha ignorância a respeito do jongo é sintoma de um apagamento histórico que tem sido combatido pelas atuais organizações jongueiras. Se você nunca tinha ouvido falar do jongo, me sinto muito honrada de fazer essa ponte!

    A história do Jongo

    Em novembro de 2005, o jongo foi proclamado patrimônio
    cultural brasileiro pelo Conselho Consultivo do Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan). Reproduzo abaixo trechos coletados do dossiê do próprio Iphan:

    Forma de expressão afro-brasileira, o jongo integra percussão de tambores, dança coletiva e práticas de magia. Acontece nos quintais das periferias urbanas e de algumas comunidades rurais do Sudeste brasileiro, assim como nas festas dos santos católicos e divindades afro-brasileiras, nas festas juninas, no Divino e no 13 de maio da abolição dos escravos.

    O jongo é uma forma de louvação aos antepassados, consolidação de tradições e afirmação de identidades. Ele tem raízes nos saberes, ritos e crenças dos povos africanos, principalmente os de língua bantu. São sugestivos dessas origens o profundo respeito aos ancestrais, a valorização dos enigmas cantados e o elemento coreográfico da umbigada.

    No Brasil, o jongo se consolidou entre os escravos que trabalhavam nas lavouras de café e cana-de-açúcar, no Sudeste brasileiro, principalmente no vale do rio Paraíba do Sul. Nos tempos da escravidão, a poesia metafórica do jongo permitiu que os praticantes da dança se comunicassem por meio de pontos que os capatazes e senhores não conseguiam compreender. Sempre esteve, assim, em uma dimensão marginal, em que os negros falam de si, de sua comunidade, por meio da crônica e da linguagem cifrada.

    Tambu, batuque, tambor, caxambu. O jongo tem diversos nomes, e é cantado e tocado de diversas formas, dependendo da comunidade que o pratica. Se existem diferenças de lugar para lugar, há também semelhanças, características comuns em muitas manifestações do jongo.

    Ao longo do século 20, as comunidades jongueiras estiveram envolvidas em complexos e dinâmicos processos socioculturais que condicionaram diferenças e especificidades. No Sudeste brasileiro, em muitas das comunidades com descendentes de escravos, o jongo desapareceu, tanto pela dispersão de seus praticantes em consequência da migração e dos processos de urbanização, como pelo obscurecimento destas práticas por outras expressões de maior apelo junto ao crescente mercado de bens simbólicos. Ou também devido à vergonha motivada pelo preconceito, expresso pelos segmentos da sociedade abrangente, relativo às práticas culturais afro-brasileiras.

    Em outras comunidades, no entanto, o jongo tem sido um fator de integração, construção de identidades e reafirmação de valores comuns – estratégias em que a memória e a criatividade são fundamentais. Diante das desigualdades econômicas, da exclusão social e da invisibilidade deste fazer cultural junto aos demais segmentos da sociedade brasileira, as comunidades jongueiras têm desenvolvido soluções próprias, alternativas para a preservação de seus saberes e expressões.

    As crianças, por exemplo, que durante muito tempo não podiam frequentar as rodas de jongo, hoje são estimuladas a aprender o canto e a dança de seus ancestrais. E, em muitas comunidades, não é mais necessário ser filho de jongueiro para ser considerado jongueiro. A aproximação de pesquisadores e estudiosos, bem como, mais recentemente, de jovens das camadas médias urbanas, fez com que a participação em uma roda de jongo não estivesse mais limitada aos integrantes das comunidades jongueiras. Além disso, algumas comunidades passaram a fazer apresentações artísticas, nas quais as rodas de jongo acontecem sob a forma de espetáculo.

    Uma forma fantástica de conhecer melhor a história do jongo é através de entrevistas dos atuais representantes das organizações jongueiras. Deixo aqui o link para um podcast sobre o Jongo da Serrinha, e outro sobre o Caxambu do Salgueiro – ambas comunidades cariocas.

    Também indico as seguintes entrevistas de jongueiras proeminentes:

    Pretos-velhos do jongo e da umbanda

    A cada ponto de jongo ouvido de maneira mais atenta, noto resquícios de pontos de umbanda relacionados às experiências vividas ao longo de toda minha infância e que até hoje se mantém presente. A atenção a esses momentos me fez perceber que na verdade “aquela cultura” era a “minha cultura”, muitos dos ensinamentos eram próximos ao que por vezes ouvi de minha avó, também negra, e suburbana.

    Joana Pinho dos Santos em Na Roda giram histórias: relatos de vivências com o Jongo da Serrinha.

    Eis a minha inquietação ao me deparar com os pontos de jongo, ao ler sobre as mirongas das rodas e conhecer um pouco mais sobre grandes matriarcas jongueiras. A familiaridade é enorme – impossível não fazer associações com a umbanda, e, mais especificamente, com a linha de pretos-velhos.

    O próprio dossiê do Iphan sobre o jongo no sudeste faz menção à umbanda:

    Um dos fenômenos mais característicos do jongo é sua conexão sistemática com a umbanda, dada pela linguagem (o termo ponto só é usado com o significado de canto nesse contexto), pelo repertório vocal (alguns pontos de jongo são conhecidos em terreiros de umbanda e vice-versa), pelo uso dos mesmos tambores e pela própria filiação religiosa dos participantes, a maioria deles fiéis das religiões afro-brasileiras. Daí a necessidade de se negociarem constantemente as fronteiras entre jongo e umbanda.

    À meia-noite, a negra mais idosa e responsável pelo jongo interrompe o baile, sai da barraca e caminha para o terreiro de “terra batida”. É hora de acender a fogueira e formar a roda. As fagulhas da fogueira sobem pro céu e se misturam com as estrelas. Ela se benze nos tambores sagrados, pedindo licença aos pretos-velhos – antigos jongueiros que já morreram – para iniciar o jongo.

    História do Jongo e da Serrinha

    Essa última descrição é de arrepiar. Não tenho dúvidas de que estamos falando de diferentes expressões dos mesmos pretos-velhos.

    Outro aspecto que reforça tal associação são os vocativos usados na umbanda para se referir às entidades. Vovó, vovô, pai ou tia. É sempre assim. Pois veja como o mesmo padrão é observado nas comunidades jongueiras:

    Em uma comunidade jongueira as relações de parentesco estão nos vocativos. Sendo ligados por sangue ou não, os jongueiros têm uma relação de respeito tão forte entre si que todo viram parentes próximos, “por consideração” — eles dizem. Quanto às mulheres é um tal de Tia pra lá, Vovó pra cá, que não tem fim. Fica até difícil saber quem tem laço sanguíneo de fato — assimilamos essa prática em nosso cotidiano para nos referir principalmente àqueles que desejamos criar intimidade. As mães do jongo, portanto, são todas essas Tias e Vovós que se respeita em uma comunidade. Geralmente, quando se refere como mãe a uma delas significa que é mãe por laço de sangue ou mãe-de-santo […]

    Tias e Vovós: as mães do jongo

    Poderia me estender e me debruçar sobre a fé católica expressa pelos pretos-velhos da umbanda que também encontramos nos pontos de jongo. Há tanto a se explorar! Mas preciso urgentemente parar de ler sobre o jongo e voltar para minha lista de tarefas. Só precisava colocar pra fora meu encantamento com essas descobertas. Espero que tenha sido uma leitura interessante pra você que chegou até aqui.

    Escute


    Se teu corpo se arrepiar
    Se sentires também o sangue ferver
    Se a cabeça viajar
    E mesmo assim estiveres num grande astral

    Se ao pisar o solo teu coração disparar
    Se entrares em transe sem ser da religião
    Se comeres fungi, quisaca e mufete de cara-pau
    Se Luanda te encher de emoção

    Se o povo te impressionar demais
    É porque são de lá os teus ancestrais

    Pode crer no axé dos teus ancestrais

    Semba dos Ancestrais
    Martinho da Vila


    Referências

    Aviso de uso de IA: as referências abaixo foram ordenadas alfabeticamente e padronizadas conforme normas da ABNT.

    CASTRO, Felipe et al. Quelé, a voz da cor: biografia de Clementina de Jesus. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2017.

    INSTITUTO DO PATRIMÔNIO HISTÓRICO E ARTÍSTICO NACIONAL (IPHAN). Jongo no Sudeste. Brasília: Iphan, 2007. (Dossiê Iphan, 5).

    JONGO DA SERRINHA. Acervo Tia Maria do Jongo. Rio de Janeiro, 6 nov. 2023. Disponível em: https://jongodaserrinha.org/acervo/. Acesso em: 16 abr. 2026.

    JONGO DA SERRINHA. História do Jongo e da Serrinha. Rio de Janeiro, 5 nov. 2023. Disponível em: https://jongodaserrinha.org/111-2/. Acesso em: 16 abr. 2026.

    ODRM BLOG. Tias e Vovós: as mães do jongo. Rio de Janeiro, 8 maio 2011. Disponível em: https://odrmblog.wordpress.com/2011/05/08/tias-e-vovos-as-maes-do-jongo/. Acesso em: 16 abr. 2026.

    SANTOS, Joana Pinho dos. O jongo como fio condutor: um relato de experiência e uma breve reflexão sobre as estratégias de pesquisa em acervos institucionais. In: DIAS, Carla da Costa (org.). Na Roda giram histórias: relatos de vivências com o Jongo da Serrinha. São João de Meriti: Desalinho, 2021. p. 52-63.

    SOUSA, Aline Oliveira de. Dançando e contando as memórias de Tia Maria do Jongo. In: DIAS, Carla da Costa (org.). Na Roda giram histórias: relatos de vivências com o Jongo da Serrinha. São João de Meriti: Desalinho, 2021. p. 153-163.