Dedico esta página à memória da casa onde tive a honra e o privilégio de vivenciar uma expressão muito amorosa da religiosidade umbandista. A Tenda Espírita Filhos de Oxalá (TEFO) esteve ao serviço da comunidade em Vila Isabel, na cidade do Rio de Janeiro, entre o período de 1974 e 2020.

Meu avô fez parte do corpo da casa a partir da década de 70, minha mãe a partir de 1990, e eu tive o prazer de ingressar no ano de 2015. Comecei a frequentar por livre e espontânea vontade depois de adulta – os dois nunca me incentivaram a tanto, foi só a partir da minha própria curiosidade que fui apresentada a uma gira pela primeira vez. Me encantei de imediato pela Umbanda e não demorou muito para ser convidada pela Tia Maria para vestir o branco. Que saudade!
Decidi fazer esse pequeno registro pois acho que a história do terreiro precisa ser lembrada; espero que frequentadores saudosos possam encontrá-lo ao pesquisarem por alguma memória.
História
A Tenda Espírita Filhos de Oxalá foi fundada no dia 23 de abril de 1974 na Rua Tôrres Homem. A casa tinha Ogum como patrono e o Caboclo Vira Mundo como guia-chefe. À frente da casa estavam também Ogum Beira-Mar e a preta velha Tia Maria. Foi um terreiro pequeno, simples e de origem familiar, fundado pelos irmãos Milene, Juca e Nice.
Quando ingressei na TEFO, em 2015, Mãe Nice era a dirigente e a única dos irmãos fundadores ainda viva. Mineira de uma família de sete irmãos, Nice chegou ao Rio de Janeiro na década de 1950. Seu contato com a religião iniciou-se na busca por auxílio para a saúde de um de seus irmãos. Passou a frequentar o Centro Espírita Caboclo Pena Branca, no Cachambi, onde começou seu desenvolvimento espiritual acompanhada por Milene e Juca.
Com o encerramento das atividades no Cachambi, o trio deu continuidade aos trabalhos de forma itinerante. Atendiam nas residências daqueles que careciam de ajuda e realizavam ritos nas matas e nas praias. A percepção de que a assistência demandava um local fixo mobilizou amigos da família, que auxiliaram na construção do terreiro na parte inferior da casa onde moravam, em Vila Isabel.
Em 2001 faleceu a Mãe Milene, que deixou uma lacuna que quase provocou o fechamento do terreiro. Nice seguiu à frente dos trabalhos, mas deparou-se com uma nova perda em 2011 com a morte de Juca, que já se encontrava afastado devido a um AVC. Fragilizada, ela cogitou encerrar as atividades. Contudo, amparada pelas entidades e pelo apoio dos filhos da casa, decidiu manter as portas abertas.
Mãe Nice dedicou-se à TEFO até seu falecimento em junho de 2016. Seguimos com o trabalho no terreiro até março de 2020. Infelizmente, em meio à pandemia de COVID-19, as atividades foram encerradas definitivamente por decisão da família.
Legado
A TEFO fechou suas portas mas os aprendizados seguem conosco pelo resto da vida. Tenho muito orgulho e gratidão pelo período em que pude participar deste grupo.
Sinto muitas saudades das conversas com as entidades e de passar horas e horas cantando em meio aos trabalhos. Nunca esquecerei dessas experiências e as guardo num lugar muito especial no meu coração ❤

Salve a memória da TEFO!
