Hoje me deparei com o cadáver de uma árvore. Uma árvore muito querida. Infelizmente só me dei conta do quanto eu amava essa árvore ao dar de encontro a suas raízes expostas e descobrir que ela se foi. Acho que é o que acontece na maioria das vezes, né? Só tomamos consciência da importância delas quando as perdemos.


A tragédia aconteceu na última quarta-feira, dia em que o Rio viveu um vendaval louco que instalou o mais absoluto caos na cidade. Houve queda de energia na cidade toda (nem semáforos estavam funcionando) e o serviço do metrô foi interrompido por horas. Infelizmente o estrago foi grande, com duas mortes de seres humanos e mais de 200 mortes de árvores.
Interessante, não é mesmo? Não falamos da morte das árvores. Nas notícias aparecem como “quedas”. Quedas de árvores. Da mesma forma que se referem às caixas d’água que voaram por aí. Acabei de constatar isso enquanto escrevia e me entristeci por essa frieza… precisamos dar mais valor aos seres que refrescam o ambiente e dão abrigo aos poucos passarinhos que ainda alegram nossos ouvidos.
Felizmente, não sou a única que pensa dessa maneira. Ao me aproximar da árvore que me concedeu o favor de sua sombra durante toda a minha vida, percebi que havia um papel fixado nela e me inclinei pra ler. Tive uma bela surpresa! Uma moradora do bairro, muito mexida pelo falecimento da nossa amiga, decidiu fazer uma homenagem pública. Compartilho a imagem e transcrição abaixo:

À querida árvore
Moradora de Botafogo, Rio de Janeiro
Agradecimentos profundos por todo esse tempo de generosidade!
Desculpas eternas por tantos maus tratos.
As velhas árvores (Olavo Bilac)
Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores novas, mais amigas:
Tanto mais belas, quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…
O homem, a fera, e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres de fomes e fadigas;
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo! Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem:
Na glória da alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!
Me emocionei muito com o gesto dessa pessoa. A leitura do poema aqueceu meu coração e senti que de alguma maneira a história daquele ser foi honrada. Não há muito o que se fazer a respeito do estrago do vento; só posso desejar que todos os bichinhos que moravam nela tenham encontrado um lugar seguro. Fora isso, é acompanhar e cobrar pelo replantio.


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