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  • Hoje retorno ao blog com a honrosa missão de apresentar as possibilidades do RSS para pessoas queridas e a todos os estranhos que porventura entrem em contato com esse post. Quanto mais desconhecidos melhor, bem-vindos!

    Há algumas semanas, redescobri os feeds RSS e mudei radicalmente meus hábitos de consumo de informação na web. Esse processo me trouxe tantas alegrias que decidi criar um pequeno guia para compartilhar com vocês, explicando tudo aquilo que eu gostaria de ter encontrado quando comecei.

    Really Simple Syndication

    RSS (Really Simple Syndication, ou “Sindicação Muito Simples” em tradução livre) é um formato de distribuição de informações em tempo real pela internet. É uma tecnologia baseada em linguagem XML que permite que usuários recebam atualizações automáticas de sites, blogs, portais de notícias e podcasts, sem precisar visitá-los individualmente.

    Trata-se de uma tecnologia relativamente antiga, mas caiu no esquecimento – muitos de nós que já fizemos uso dela acabamos abandonando com o advento das redes sociais fechadas. Deixamos de acompanhar diretamente as páginas de interesse para seguir os perfis nas plataformas das Big Techs, e, como um sapo na panela, não percebemos quando a água ferveu – perdemos totalmente o controle do conteúdo a que expomos nossa atenção.

    As tais redes já deixaram de ser sociais há muito tempo e se tornaram o grande motor da economia da atenção. Ainda é possível se informar por meio delas, mas a contrapartida é se submeter a um mar de propagandas e informações não solicitadas, cujo objetivo maior é manter o usuário na plataforma para gerar lucro. No processo, os dados sobre o que captura a sua atenção ainda são vendidos a quem der o maior lance. É uma troca pouco vantajosa, convenhamos.

    Qualquer um que já tenha experienciado um episódio de horas de doomscrolling sentiu no fundo do peito a humilhação de ter perdido o controle do próprio foco. Tenho certeza de que boa parte das pessoas que estão lendo esse texto já passaram por isso, talvez há não muito tempo, e algumas não fazem ideia de que, no RSS, reside uma alternativa poderosa de vivência da web.

    Venho, pois, apresentar as principais possibilidades do uso dos feeds RSS para sabotar as Big Techs e retomar o controle sobre o nosso tempo. Explicarei mais à frente como configurar a sua própria timeline (análoga às das redes sociais, só que totalmente curada por você), aguente firme 😅

    Volte a se informar diretamente com jornalistas

    O uso dos feeds RSS é definitivamente a melhor forma de acompanhar múltiplos veículos de notícias. Ao abrir seu agregador de feeds, vai se deparar com o noticiário coletado diretamente das fontes confiáveis escolhidas a dedo por ninguém mais do que você!

    Vamos combinar que se tornou uma missão impossível acompanhar os principais jornais e revistas através das redes sociais comerciais como Instagram e X (RIP Twitter). Quando você dá a sorte de esbarrar com uma publicação do veículo que “segue”, ela será transmitida em um vídeo curto, manchete em uma imagem, breve legenda. Se faz o grande esforço de procurar o link da matéria, ainda precisa enfrentar a tragédia de ler parágrafos entremeados por um número inconcebível de anúncios nos sites – isso, quando não dá de cara com um paywall.

    A triste verdade é que, por todas essas dificuldades, paramos de ler as notícias completas e nos contentamos com as manchetes e legendas de posts. Se você nunca chegou nesse ponto, parabéns! Mas a minha impressão é que muita gente tem sofrido dessa mesma paralisia.

    Diante de um cenário de tanta pobreza informacional, o RSS é o nosso salvador. Ao selecionar suas fontes de notícias, você pode acompanhar os feeds com a paz de espírito de conhecer a origem, evitar as distrações dos algoritmos cassino-like das Big Techs, aproveitar suas leituras de forma limpa visualmente e, *brinde*, redescobrir o jornalismo sério e comprometido a que muitos profissionais competentes nunca deixaram de se dedicar.

    Meu presente pra você

    Listei todos os feeds que acompanho atualmente para me manter informada e estou te entregando de bandeja para que comece logo a criar a sua própria timeline. Levei um bocado de tempo para chegar a esta lista, então seja feliz e aproveite! 😊

    Infelizmente há grandes jornais – cof cof O Globo cof – que se recusam a oferecer feeds para as diferentes editorias. Não uso e não recomendo assinar o feed geral desses sites, pois o volume de reportagens é impraticável de ser lido. Por isso, não os incluo na lista.

    Você pode visualizar os feeds antes de assinar para verificar se o formato oferecido pelo veículo te interessa e se o link está funcionando. A maioria da lista entrega as publicações completas, mas alguns só enviam resumos com o direcionamento para a matéria. Nesses casos, encaminho direto para a leitura no Instapaper, o que mantém a limpeza da leitura e também contorna a maioria dos paywalls.

    Aviso do uso de IA: Os sites foram ordenados em ordem alfabética e as descrições foram geradas artificialmente.

    Agência BrasilAgência pública de notícias da EBC, com cobertura diária sobre política, economia, ciência, cultura e políticas públicas. Oferece múltiplos feeds.
    Agência Fiocruz de NotíciasPortal jornalístico da Fiocruz dedicado à saúde pública e à divulgação científica, com reportagens sobre pesquisa biomédica, epidemiologia e políticas de saúde.
    Agência LupaAgência especializada em verificação de fatos, dedicada a checar declarações públicas, boatos virais e conteúdos desinformativos.
    Agência PúblicaOrganização independente de jornalismo investigativo que publica reportagens aprofundadas sobre política, meio ambiente, direitos humanos e poder econômico.
    Aos FatosProjeto jornalístico focado em checagem de fatos e monitoramento da desinformação no debate público e nas redes sociais.
    BBC BrasilServiço em português da BBC, com reportagens sobre política, ciência, economia e cultura, frequentemente com perspectiva internacional.
    Brasil de FatoPortal jornalístico com foco em política, movimentos sociais, meio ambiente e direitos humanos. Oferece múltiplos feeds.
    Carta CapitalRevista política brasileira que publica diariamente reportagens, colunas e análises em sua edição digital. Oferece múltiplos feeds.
    Folha de São PauloUm dos principais jornais do país, com dezenas de feeds organizados por editorias e seções. Oferece múltiplos feeds.
    Gama RevistaRevista digital dedicada a comportamento, cultura contemporânea e cotidiano urbano, com textos narrativos e entrevistas.
    Intercept BrasilRedação brasileira do The Intercept, conhecida por reportagens investigativas e análises políticas.
    Manual do UsuárioSite independente sobre tecnologia e cultura digital, com análises de plataformas, privacidade e produtos tecnológicos.
    Nexo JornalVeículo digital voltado ao jornalismo explicativo, com análises de contexto e visualização de dados.
    Núcleo JornalismoOrganização dedicada a jornalismo de dados e investigações sobre desinformação e plataformas digitais.
    O Joio e O TrigoSite especializado em investigações sobre alimentação, indústria de alimentos e sistemas alimentares.
    Opera MundiPortal voltado à cobertura internacional, com reportagens e análises sobre política global e geopolítica.
    Outras PalavrasRevista digital que publica ensaios e análises sobre política, economia, tecnologia e cultura contemporânea.
    Pesquisa FAPESPRevista de divulgação científica dedicada à cobertura de pesquisas acadêmicas, ciência brasileira e inovação.
    Ponte JornalismoAgência dedicada à cobertura de segurança pública, justiça criminal e direitos humanos.
    Revista FórumPortal de notícias e opinião com cobertura política diária e colunistas do debate público brasileiro.
    Revista PiauíRevista conhecida pelo jornalismo narrativo, com reportagens longas, perfis e crônicas.
    Revista TripPublicação voltada a comportamento, cultura e entrevistas, com perfis e ensaios sobre sociedade contemporânea.
    SumaúmaRevista digital dedicada à Amazônia, com reportagens sobre meio ambiente, povos indígenas e política da região.

    Democracy Now!Programa jornalístico independente com entrevistas, reportagens e cobertura diária sobre política, direitos humanos e movimentos sociais. Oferece múltiplos feeds.
    NatureRevista científica internacional que publica pesquisas originais, notícias sobre ciência e análises de política científica e inovação.
    Rest of WorldSite de jornalismo dedicado a reportagens sobre tecnologia e seus impactos sociais, com foco em experiências fora dos grandes centros tecnológicos tradicionais.
    ScienceRevista científica com artigos de pesquisa, reportagens sobre ciência e cobertura de política científica, editada pela American Association for the Advancement of Science. Oferece múltiplos feeds.
    The DialRevista digital que publica reportagens, ensaios e textos literários de colaboradores internacionais, frequentemente traduzidos para o inglês e focados em cultura, política e sociedade.
    The New YorkerRevista semanal com reportagens longas, perfis, ensaios culturais, crítica literária e cobertura de política e sociedade. Oferece múltiplos feeds.
    The New York TimesJornal com cobertura internacional de política, economia, ciência, cultura e reportagens investigativas. Oferece múltiplos feeds.

    Agenda CariocaGuia independente de programação cultural do Rio. O site reúne sugestões de exposições, shows, peças, bares, restaurantes e passeios pela cidade, funcionando como um radar contínuo da agenda cultural carioca. Oferece múltiplos feeds.
    Diário do RioPortal dedicado exclusivamente ao Rio de Janeiro. A cobertura acompanha política municipal, urbanismo, mobilidade, patrimônio histórico, turismo e temas do cotidiano da cidade. Oferece múltiplos feeds.
    Voz das ComunidadesVeículo comunitário surgido no Complexo do Alemão. O jornalismo é voltado ao cotidiano das comunidades cariocas, com reportagens sobre segurança pública, direitos sociais, cultura e iniciativas locais.

    Minha lista pode ser um bom ponto de partida, mas você deve buscar suas próprias fontes. Indico que explore o mapa do jornalismo independente da Agência Pública e a lista de veículos associados à Associação de Jornalismo Digital.

    Peço para que me avise se algum link estiver fora do ar e também que contribua com seus feeds! Essa página será atualizada frequentemente com as sugestões dos leitores.

    Youtube, newsletters e muito mais

    Prepare-se! Se você já achou revolucionário o que leu até aqui, acho que há mais algumas possibilidades surpreendentes.

    É possível receber os vídeos dos seus canais favoritos no Youtube sem nunca abrir a página, de forma anônima. O mesmo é verdadeiro para os autores que você gosta de acompanhar nas plataformas cada vez mais fechadas do Substack e Medium. Sem falar em redes de microblogging como Bluesky e Mastodon, subs do Reddit; enfim, confira a tabela abaixo:

    Youtubehttps://www.youtube.com/feeds/videos.xml?channel_id={ID DO CANAL}
    Substackhttps://TÍTULO.substack.com/feed
    Mediumhttps://{TÍTULO}.medium.com/feed
    BlueskyO Bluesky suporta feeds RSS, mas não os exibe abertamente. São facilmente encontrados por ferramentas automáticas de detecção de feeds RSS, então você pode receber todas as postagens dos perfis que quiser no seu agregador.
    MastodonObtenha um feed de perfis do Mastodon com https://{URL DO SERVIDOR}/users/{NOME DO USUÁRIO}.rss OU https://{URL DO SERVIDOR}/@{NOME DO USUÁRIO}/with_replies.rss para ver também as respostas.
    RedditSiga qualquer subreddit ou usuário adicionando “.rss” ao final do nome, como https://www.reddit.com/r/{SUBREDDIT}.rss ou 
    https://www.reddit.com/u/{NOME DO USUÁRIO}.rss
    Tumblrhttps://{URL DO BLOG}.tumblr.com/rss
    Flickrhttps://www.flickr.com/services/feeds/photos_public.gne?id={USER-ID}&lang=en-us&format=atom
    Ai, mas e o Instagram, o TikTok e o X?

    Sinto lhe informar que essas plataformas do mal não fornecem feeds por motivos óbvios. Já houve um tempo em que se podia acompanhar os tweets de qualquer usuário no Twitter, mas bom, isso ficou para trás.

    De todo modo, há algumas artimanhas para receber conteúdo dessas redes diretamente no seu agregador de feeds. Uma delas é o uso do RSS Bridge, um software web que gera feeds RSS e Atom para sites que não os possuem. Você pode hospedar o serviço em seu próprio servidor ou usar uma instância pública.

    Eu já testei o Bridge dessa instância pública para as três plataformas citadas e funcionou muito bem. Estou recebendo as publicações das poucas contas que selecionei, o que é bem empolgante! Já ouvi falar que essas soluções são instáveis, podem parar de funcionar eventualmente pois são combatidas pelas empresas, mas vale o esforço para não precisar enfrentar o chorume.

    É uma maneira de acompanhar as postagens dos seus amigos e família mesmo se preferir o distanciamento das redes. Para interagir pontualmente com curtidas e comentários é só abrir o link. Capaz até de interagir mais com eles dessa forma do que usando o aplicativo, uma vez que a maior parte do conteúdo entregue é de contas que não seguimos e propaganda. Com o feed não tem essa, você recebe todas as publicações.

    Descubra novos interesses e interaja com estranhos

    Por fim, a parte mais encantadora de centralizar o consumo de informação no seu agregador de feeds RSS é a possibilidade de acompanhar as publicações de blogs pessoais. Mergulhe na blogosfera e encontrará uma infinidade de pessoas escrevendo sobre suas vidas e a respeito de interesses que jamais passaram pela sua cabeça. Troque ideia com essas pessoas! Quem sabe você não se anima e começa a escrever seu próprio blog?

    Para encontrar esses blogueiros, recomendo que comece explorando os seguintes links:

    É muito simples acompanhar feeds RSS. Você só precisa do link e alguma ferramenta capaz de ler o XML – leva-se apenas alguns minutos para configurar. Não requer prática, nem tampouco experiência!

    Agora que você já tem alguns feeds em mãos para começar, só falta explorar as opções de aplicativos e definir qual se adequa melhor ao seu perfil.

    • Inoreader (Web, iOS, Android): É o que eu provavelmente usaria como alternativa ao meu setup atual. Na versão gratuita, permite a inclusão de até 150 feeds e número ilimitado de pastas, além de uma boa ferramenta de pesquisa. Dizem que exibe alguns anúncios, mas não encontrei nenhum quando testei.
    • Feedly (Web, iOS, Android): O leitor mais popular atualmente. A experiência de usuário é maravilhosa, mas possui uma limitação considerável do número de feeds (até 100) e apenas 3 pastas na versão gratuita. Pode ser uma boa opção para começar a experimentar, ou se achar que vale pagar uma assinatura.
    • FeedMe (Android): É o leitor que eu uso no celular. Ele é maravilhoso se você prefere armazenamento local. Caso deseje sincronia entre dispositivos, vai precisar recorrer a algum agregador como FreshRSS, Inoreader, Feedly, etc.
    • NetNewsWire (Mac, iOS): A melhor opção para quem usa apenas dispositivos Apple. Gratuito e de código aberto.
    • Artemis (Web): Uma opção gratuita baseada nos princípios da slow web. Atualiza apenas uma vez por dia.

    Após escolher a sua ferramenta de preferência, falta apenas baixar o aplicativo e agregar link por link da sua seleção. Pode parecer um pouco complicado, mas esses apps são bastante intuitivos. Se tiver alguma dúvida comente aqui, terei o maior prazer em ajudar.

    FreshRSS + FeedMe

    Essa é a combinação que estou usando e recomendo, mas ela requer um pouco mais de conhecimento técnico.

    O FreshRSS é a principal escolha para quem busca soberania digital. Ele é um agregador de código aberto e auto-hospedado, o que significa que você pode instalá-lo no seu próprio servidor para ter controle total sobre seus dados, sem depender de empresas terceiras. Ele é extremamente leve, suporta múltiplos usuários e possui uma API compatível com diversos aplicativos móveis. A instalação levou apenas alguns minutos pelo painel do cPanel do meu site (buscar por Softaculous Apps Installer).

    Já o FeedMe é o aplicativo que uso no celular android. Ele recebe os feeds que foram agregados pelo FreshRSS e me entrega em uma timeline bem personalizável. Oferece uma lista de leitura que reproduz as publicações em áudio, uma funcionalidade fantástica e que tenho usado bastante – adoro selecionar reportagens curtas para ir ouvindo enquanto lavo a louça. Também parece ser um bom reprodutor de podcasts, mas ainda não testei essa função.

    A internet ainda pode ser nossa

    A mudança no hábito de consumo da informação é provavelmente um dos maiores atos de rebeldia da atualidade. Ao colocar o pé para fora dos jardins murados das redes sociais, nos deparamos com uma web extremamente inspiradora e plural, que sempre foi domínio do livre intercâmbio de ideias. Ainda é possível fortalecê-la e recuperar o tráfego global que foi sugado pelo oligopólio de meia dúzia de corporações, mas para isso é necessário um movimento no âmbito coletivo. Cabe a nós defender este espaço com unhas e dentes.

    Agradeço a sua atenção e espero que a leitura tenha sido útil. É um grande prazer sonhar em voz alta e vislumbrar um mundo menos dominado por interesses capitalistas. A cada troca na blogosfera, uma fagulha de esperança na humanidade 🔥


  • Olá, queridos leitores, boas-vindas ao meu blog renascido das cinzas! Foram muitos anos de abandono de atualizações e quase duas décadas de afastamento do meu espírito de blogueira raiz, mas felizmente estamos de volta.

    Desde o início de 2026, tenho experienciado profundas transformações no meu relacionamento com as redes sociais e com o consumo de informação pela web em geral. Estava muito insatisfeita com a maneira como as redes comerciais fechadas (em especial o Instagram) deixaram de entregar as publicações das contas que seguimos e nos aterraram em um lixão de publicidades e vídeos não solicitados por meio de algoritmos diabólicos.

    Acho que a grande virada de chave foi a longínqua lembrança do uso de leitores de RSS. Não me lembro mesmo como essa memória atravessou a minha mente; só que fui invadida por uma nostalgia e imediatamente me pus a pesquisar sobre o atual estado dessa tecnologia avançadíssima (risos). Fui surpreendida ao me dar conta de que muitas pessoas ainda fazem uso dela. Diante dessa descoberta, percebi que havia uma saída possível para o meu descontentamento.

    Um feed todo meu

    Na minha época de blogueira – sobre a qual me debruçarei em breve -, o feed RSS era tão importante quanto a minha caixa de e-mails. Espaço central no consumo de informação pela rede, era ele que recebia o primeiro clique ao sentar na frente do computador (sim, ainda estava muito longe de usar meu primeiro smartphone).

    Se você não teve contato com essa maravilha criada em 1999, aqui vai uma breve descrição:

    RSS (Really Simple Syndication, ou “Sindicação Muito Simples” em tradução livre) é um formato de distribuição de informações em tempo real pela internet. É uma tecnologia baseada em linguagem XML que permite que usuários recebam atualizações automáticas de sites, blogs, portais de notícias e podcasts, sem precisar visitá-los individualmente.

    Basicamente, os feeds RSS foram a inspiração a partir da qual todas as redes sociais atuais se desenvolveram. O conceito de “seguir” uma pessoa para receber suas publicações partiu justamente daí. Só que, infelizmente, ao longo dos anos, essas redes foram desvirtuadas e se tornaram espaços cada vez mais fechados e otimizados para fins comerciais.

    Eu, que era uma leitora assídua de blogs, acompanhava as pessoas através do RSS, e todo mundo que se relacionava virtualmente comigo costumava fazer o mesmo. Com o advento das redes sociais, fomos coletivamente abandonando nossos espaços pessoais e adentrando as redes. Sem perceber, abandonamos nossos feeds e ficamos dependentes das big techs. Não me recordo da última vez que abri meu leitor de feeds; tudo se perdeu.

    Mas há cerca de um mês retomei a prática e adotei um novo leitor. Comecei a buscar páginas relevantes para seguir e aos poucos estou formando meu próprio feed, livre de algoritmos e propagandas. É difícil de expressar o quão libertador está sendo esse processo – é como se estivesse voltando a respirar um ar mais puro após muito tempo vivendo em um ambiente poluído.

    Escrevi um post detalhado sobre esse tema, confira!

    Descoberta da IndieWeb

    Na busca por pessoas interessantes para seguir, acabei esbarrando com muitos blogueiros abordando a IndieWeb, um movimento que faz todo o sentido perante o estado atual das coisas.

    IndieWeb é uma comunidade de pessoas que defendem uma internet descentralizada, focada em sites pessoais e no controle total dos próprios dados. Ela propõe que usuários possuam seu próprio domínio, publiquem em seus sites primeiro (em vez de redes sociais centralizadas) e possuam seu conteúdo, promovendo uma alternativa à “web corporativa”. 

    Não são poucos os usuários que estão abandonando os jardins murados das redes sociais e retomando a posse do próprio material criativo. Aliás, a palavra POSSE é um fortuito acrônimo de Publish (on your) Own Site, Syndicate Elsewhere – Publique (em seu) próprio site, compartilhe em outros lugares – muito usada nesse contexto.

    Uma web moribunda começa a renascer e, embora sinta que cheguei atrasada para a festa, estou muito feliz e animada por finalmente entrar em contato com esse movimento. É um espaço muito acolhedor e revigorante.

    Viajando no tempo

    A cereja do bolo nesse processo de transformação do meu relacionamento com a web foi meu encontro com o passado.

    Não sei se você já teve o prazer de navegar pela Wayback Machine. Trata-se de um banco de dados digital criado pelo Internet Archive – eles arquivam mais de 1 trilhão de páginas da World Wide Web desde 1996. Vale a pena digitar o endereço de um site que você frequentava muito tempos atrás, é surpreendente.

    Bom, eu percebi que nunca tive a curiosidade de revisitar meus blogs antigos e que havia grandes chances de encontrar algum registro por essa ferramenta. Pois encontrei!

    quarto 2009
    Meu quarto extremamente rosa em março de 2009. Amo todos os detalhes: a janela do msn aberta no pc, a roupa de cama da pequena sereia, os quadrinhos na parede que eu diagramei no Photoshop CS3.

    Uma série de publicações do meu primeiro domínio estavam disponíveis, a primeira delas datada em 2007. Me deparei com meu eu do passado que ficou bastante esquecido: uma adolescente de 13 anos extremamente empenhada em fazer parte da blogosfera, aprendiz empolgada de design e muito fã de Harry Potter.

    Redescobri informações que já havia esquecido completamente. Por exemplo, que tinha um grupinho tão legal de leitores, que criei um fórum no meu próprio site para interagirmos. Que naquela idade já tinha uma lojinha virtual onde oferecia serviços gráficos e que recebia por isso. Que eu pintava o layout do meu site à mão e mapeava pixel a pixel para ter um visual totalmente autêntico!


    É sempre bom fazer algo diferente, que ninguém nunca fez, algo inteiramente seu.

    Luciana de 13 anos

    Fiquei encantada com as palavras da eu adolescente. Somos tão diferentes, mas certos traços são intrínsecos. Um dos mais marcantes é a voz e estilo de escrita, que, fora a incorporação de um vocabulário um pouco melhor, mudou muito pouco. Já alguns interesses que expressava me tiraram boas gargalhadas de tão distantes da minha realidade.

    Eu escrevia sobre cada pequeno processo de aprendizado com muita animação. Claramente o espaço do blog era edificante; me proporcionava muitas interações sociais genuínas, trocas mutuamente enriquecedoras. O tipo de troca da qual sinto muita falta, o tipo de troca que quero começar a retomar nessa nova fase do meu site.

    Uma nova era

    Meu objetivo com esse post foi contextualizar brevemente a motivação das mudanças implementadas no site. Não que eu já tenha leitores assíduos, não é o caso, a página estava morta. Mas fica o registro para a posteridade.

    Após um longo período confuso em que o sol na cabeça transitou entre um blog pessoal e uma página profissional, finalmente concluí a transição e migrei todo o conteúdo relacionado à Medicina Tradicional Chinesa para o local apropriado: o Observatório do Shen.

    A partir de agora, esta é a minha nova casa da web, meu blog pessoal para falar de tudo o que eu quiser. Isso inclui todas as efemeridades possíveis, que serão publicadas como notas curtas no meu novo microblog – que modéstia à parte, ficou lindo. Estou levando o princípio de POSSE a sério!

    Muito, muito, muito obrigada pelos comentários, é bom demais saber que alguém se importa em ver seu site atualizado, ler seu post e saber da sua vida.

    Espero em breve poder agradecer aos comentários novamente. Se você também escreve em seu próprio blog, me envie o link para que eu possa conferir! Vou adorar conhecer.