Na última madrugada tivemos a oportunidade de acompanhar um eclipse lunar quase total, com 96,2% de visibilidade. Essa foi a primeira vez que consegui ver o fenômeno do conforto do meu lar, o que me proporcionou uma experiência muito diferente das que tive antes. Assisti a uma parte da rua, outra parte sentada olhando pela janela da sala, até a lua estar iluminada novamente. Foi muito especial!
Por aqui estava um dia extremamente nublado, frio, chuvoso mesmo. Quando passei pela praia de Botafogo no início da tarde e vi o Pão de Açúcar todo encoberto por nuvens, pensei: “ferrou, não vai dar pra enxergar nada do eclipse”. Eis que, magicamente, ao cair da noite, fortes ventos levaram o tapetão de nuvens que encobria a cidade para longe e o céu ficou simplesmente límpido. Obrigada por tudo, Cacique Cobra Coral!

O evento começou por volta das 23:30. Nesse momento, eu estava tomando cerveja com amigos em uma rua próxima de casa. Bares lotados, as pessoas conversando em pé, e ninguém olhava pro alto. Tive que me afastar um pouco para enxergar, pois estava abaixo de uma árvore que ocultava a lua, e fui parar ao lado de uma carrocinha que vende hambúrguer. Ali estava Itamar, com quem conversei um pouco a respeito da lua.
Itamar não estava sabendo do eclipse, tampouco as outras pessoas ao redor da carrocinha. Ficaram muito admirados quando perceberam a minha movimentação e olharam para o céu; não faziam ideia do que estava se passando sobre as nossas cabeças até eu explicar. “Como você ficou sabendo disso?”. Contei que estava sendo noticiado há tempos – mas quem lê o noticiário hoje em dia?
É muito impressionante que o obscurecimento quase total da lua no céu seja imperceptível para nós, citadinos. A claridade dos postes de luz é muito mais intensa e dá trabalho procurar pelo astro em meio à silhueta dos prédios. A verdade é que a lua poderia sumir para sempre e isso não faria nenhuma diferença nas nossas rotinas urbanas. Uma constatação que eu só tive nessa madrugada, ao perceber que um evento que assombrava os antigos hoje nem sequer se faz notar.
Em contraste com essa absoluta desconexão, conto o relato do Itamar sobre a sua infância no interior do Ceará, onde a iluminação artificial ainda não havia chegado. Ele me disse que ficava apavorado com os eclipses, que eram um momento muito temido por todos. Devia mesmo ser assustador para uma criança, já que, segundo ele, existia uma prática de bater panelas, gritar e dar muitos tiros pro alto para “acordar os vegetais” e garantir que as plantações não fossem perdidas pelo obscurecimento da luz.
Além da mística ao redor dos eclipses, ele relatou como a vida era intensamente impactada pelas fases da lua. Durante a lua cheia, as crianças se encontravam lá fora e ficavam correndo e brincando a noite toda. Já na lua nova, ninguém saia de casa, pois não se enxergava absolutamente nada. Usavam lamparinas de óleo, que mal davam conta de iluminar um cômodo. Disse que era precário, mas que se divertia muito e que sente falta desse contato com a natureza. Eu, criada em apartamento, não poderia ter uma vivência mais distante dessa. Há um preço alto a se pagar pelas conveniências da cidade.
Cresci no segundo andar de um prédio baixo, cercado de outras construções mais altas. Não dava pra enxergar a lua da nossa janela praticamente nunca. Por isso, em um dia de eclipse total, no começo dos anos 2000, meu pai me levou para acompanhá-lo nos fundos do prédio, uma área livre de onde se via melhor o céu. Levou uma canga para estender no chão cimentado e deitamos ali, onde passamos horas assistindo ao espetáculo celeste. Guardo a memória dessa noite com muito carinho.

Hoje tenho o privilégio de viver em um apartamento com uma vista livre, com uma visibilidade bastante ampla do horizonte. Então, quando voltei pra casa, pude continuar vidrada na lua a partir da janela da minha sala. Passei mais de uma hora sentada admirando o eclipse e me emocionei bastante pensando em quantas pessoas ao redor do mundo estavam acompanhando esse momento extraordinário junto comigo. Imaginei como foram as experiências dos meus antepassados, gerações e gerações para trás, olhando para cima, sabe-se lá de onde.
Enxergar o movimento do nosso planeta com meus próprios olhos me fez lembrar do tamanico da Terra dentro do sistema solar e da brevidade da minha vida em termos de tempo geológico. Como é bom se situar no espaço-tempo, de vez em quando. A gente se leva a sério demais… Os sabiás concordaram comigo e começaram a cantoria da madrugada nesse exato momento, quando também terminou a nossa sombra sobre a lua, que voltou a reluzir por completo. Fui deitar, satisfeita, às três da manhã, e dormi como um bebê!

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