Comecei a semana com um bom augúrio: fui gentilmente acordada pelo meu rádio-relógio declamando um belo poema.
O Triunfo do Amarelo
Sosígenes Costa
Luta o amarelo contra o verde, agora,
no esforço de vencê-lo e confundi-lo.
E assim derrama, esdrúxulo, na flora
sépia, topázio, abóbora, berilo.
Transforma o bronze e anula o jade; e aquilo
que é verde-negro, aurífero, colora.
No esforço de vencê-lo e confundi-lo,
luta o amarelo contra o verde, agora.
Aves azuis se pintam chinesmente
de jade. E a própria flor da rubra amora
toda se pinta de âmbar louro, ardente.
E a luz do sol, sinfônica e sonora,
dos céus rolando, em mágica torrente,
a gama inteira do amarelo explora.
Não conhecia Sosígenes Costa, um premiado poeta baiano. Logo após acordar, fui buscar o poema e outras obras, e me vi aprendendo sobre o modernismo (anti-modernista) literário soteropolitano – com destaque para a “Academia dos Rebeldes”, integrada também pelo escritor Jorge Amado. Aprendizados que não teriam sido possíveis não fosse a escolha da declamação do poema pela equipe da Rádio MEC 1.

Fiquei refletindo sobre o potencial de descoberta proporcionado pelas rádios, especialmente no contexto atual em que tudo nos é oferecido a partir de algoritmos. Se não somos nós mesmos que escolhemos o que ouvir, é a sugestão dos serviços de streaming que determina o que passará por nossos ouvidos. Não mais seres humanos. Automações que reforçam nossos vieses em troca do nosso bem mais precioso: a atenção.

Escutar uma rádio depois de tanto tempo acostumada com a lógica algorítmica é um pouco desconcertante e encantador. Afinal, o que será que os próximos minutos me reservam? Uma música fantástica que transformará o meu dia ou uma obra enfadonha de um estilo que eu detesto? Como será que estava o humor do radialista quando trabalhou nessa programação? Será que a vida pessoal dessa figura de alguma forma vai reverberar no dia de todos os seus ouvintes?
Aos poucos me relembro do fantástico potencial do rádio como meio de comunicação. Ainda é um espaço com capacidade de promover alteridade e a conexão de multidões de pessoas. Criado por humanos e para humanos. Em uma era em que estamos todos isolados em nossos universos particulares, ouvindo e assistindo apenas aquilo que nos interessa ou cujo apelo foi identificado pelos aplicativos, esse é um poder muito subestimado. Claro, faltam os ouvintes, mas o potencial está lá, após mais de um século de radiodifusão no Brasil.
Oráculo sonoro
Decidi comprar um rádio-relógio após muitos anos sem ter qualquer contato com rádios; meu objetivo era remover o celular das imediações da minha cama. Me pareceu uma substituição perfeita para o despertador do celular e a potência sonora também resolveu com tranquilidade minha dificuldade de despertar.
O que eu não esperava é que fosse estabelecer uma relação tão divertida com ele. Todos os dias, ao acordar, sou apresentada a alguma música ou comentário diferente. Quando não estou absolutamente grogue de sono, coleto as informações e depois reflito a respeito delas, verificando como se relacionam com o desenrolar do meu dia. Fora que aprendo demais e conheço muitos novos artistas! Viva a radiomancia!
Referências
MATTOS, Cyro de; FONSECA, Aleilton (org.). O triunfo de Sosígenes Costa: (estudos, depoimentos e antologia). Ilhéus: Editus; Feira de Santana: UEFS Editora, 2004. 292 p. il. (Coleção Nordestina, 41).

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