Paraquedas coloridos

O último mês foi um período de muitas ideias de posts para escrever, mas não consegui me organizar para materializá-los. Tampouco fiz um bom trabalho de registrar essas ideias, só guardei algumas poucas… é, ainda estou reaprendendo a organizar meus pensamentos de forma pública. Estabelecer uma rotina de escrita pro blog ajudaria muito nisso – quem sabe até o final do ano não consigo implementar!

Sentei agora nesta noite de domingo com a esperança de publicar alguma coisa e me pus a refletir sobre o que gostaria de falar. Dentre tantas opções, a vencedora foi uma nova prática que estabeleci ao longo do mês de abril e já se tornou natural pra mim: andar com lanchinhos na bolsa para apaziguar um pouco do meu sentimento de impotência.

“Impotência?” – você me pergunta. Sim, impotência. A sensação horrorosa de completo fracasso que sinto quando sou abordada nas ruas do Rio por uma pessoa em situação de vulnerabilidade. Me sinto mal por ser mais uma de tantas a negar ajuda. Mal por viver numa sociedade tão desigual e cruel, e ter tão pouco poder para mudar isso. Sim… eu sei bem que não estou sozinha nessa. Se você mora em alguma grande capital do país e não está com dinheiro transbordando dos bolsos, provavelmente passa pelo mesmo desconforto que eu.

É inviável ajudar financeiramente todas as pessoas que me abordam diariamente: são muitas, todo santo dia. Queria eu poder oferecer uma ajuda substancial para cada uma delas… Mas, enquanto esse dia não chega, me veio uma ideia para reduzir um pouco a angústia do “não” e transformar positivamente o meu dia e o dia da pessoa que me aborda.

De forma pouco consciente, acabei reproduzindo a linha de produção dos saquinhos de doces de Cosme e Damião1 . Só que em vez de docinhos para crianças, montei um lanche com refresco, barrinha de cereal, biscoito, paçoca e balinhas (sim, essa parte é importante também). Não é muito, não mata a fome de ninguém, mas é melhor do que um não. A beleza da coisa está no ato da oferta, da gentileza, do afeto que envolve a montagem e o sacrifício dos ombros que carregam o peso extra na bolsa.

A rapidez, o anonimato, a aleatoriedade na doação são uma espécie de garantia contra o risco do interesse se insinuar, uma forma ritual que garante que doar seja doar-se. Como uma graça, ou como um sacrifício que permite que a graça emerja.

Renata de Castro Menezes em Doces Santos: devoções a Cosme e Damião

Trocando sorrisos

Me surpreendi positivamente com o impacto desses lanchinhos na minha rotina. Não imaginei que algo tão simples pudesse elevar tanto meu humor e gerar interações tão bacanas com desconhecidos na rua.

A maioria esmagadora das pessoas que me abordam e recebem o kit me presenteiam com um belo sorriso. Já recebi abraços. Incontáveis “Deus te abençoe”. Algumas situações engraçadas. Uma que eu rio só de lembrar foi de um senhor que abordou a mesa de bar onde eu estava sentada e quando ofereci o saquinho me respondeu com: “Não, não, obrigado, eu sou homem, não uso absorventes!!”. Demos muita risada, obviamente (depois ele aceitou feliz da vida).

O fato inegável é que oferecer algo pensado com carinho, por pouco que seja, sempre vai ser muito melhor do que dizer “não posso te ajudar”.

Para adiar o fim do mundo

Estava conversando com uma amiga que expressou muita frustração com o momento que vivemos enquanto humanidade e me lembrei do livro Ideias para adiar o fim do mundo, de Ailton Krenak. Recomendo a leitura a todos, é curtinha e inspiradora, especialmente se você está em um momento pessimista e na inércia da insuficiência.

Há pouco o puxei da estante para folhear antes de oferecê-lo emprestado e me deparei com alguns trechos que me chamaram muita atenção.

Por que nos causa desconforto a sensação de estar caindo? A gente não fez outra coisa nos últimos tempos senão despencar. Cair, cair, cair. Então por que estamos grilados agora com a queda? Vamos aproveitar toda a nossa capacidade crítica e criativa para construir paraquedas coloridos. Vamos pensar no espaço não como um lugar confinado, mas como o cosmos onde a gente pode despencar em paraquedas coloridos.

Temos muito medo do que vai acontecer quando a gente cair. Sentimos insegurança, uma paranoia da queda porque as outras possibilidades que se abrem exigem implodir essa casa que herdamos, que confortavelmente carregamos em grande estilo, mas passamos o tempo inteiro morrendo de medo. Então, talvez o que a gente tenha que fazer é descobrir um paraquedas. Não eliminar a queda, mas inventar e fabricar milhares de paraquedas coloridos, divertidos, inclusive prazerosos.

Quando Krenak se refere aos paraquedas, fala muito da capacidade de sonhar, além da expressão de nossas potências criativas e artísticas. Mas creio que possamos estendê-los à construção de qualquer recurso que nos ajude a reduzir a ação da gravidade sobre nossos corpos! Nesse sentido, considero meus saquinhos pequenos paraquedas coloridos. Eles não eliminam o problema, mas geram sorrisos e aquecem corações, mesmo que por alguns segundos.

Quais são os seus paraquedas de uso diário? Por favor, quero muito saber!

Referências

Aviso de uso de IA: as referências abaixo foram ordenadas alfabeticamente e padronizadas conforme normas da ABNT.

KRENAK, Ailton. Ideias para adiar o fim do mundo. Pesquisa e organização: Rita Carelli. 2 ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2020.

MENEZES, Renata; FREITAS, Morena; BÁRTOLO, Lucas (org.). Doces Santos: devoções a Cosme e Damião. Rio de Janeiro: Museu Nacional, Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2020. Dados eletrônicos. (Série Livros Digital, 21).

  1. Refiro-me à tradição carioca de celebrar o dia 27 de setembro distribuindo saquinhos de doces para crianças pelas ruas. Sabe o papo de não aceitar doce de estranhos? Nesse dia, tá liberado!

    Adicionei essa nota ao reler o post e me lembrar de quando descobri, para meu absoluto choque, que este não é um evento universal.


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