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  • Antes de praticarmos, precisamos nos observar e determinar onde estão nossas habilidades. Devemos discernir qual desses dois os principais tipos de personalidade nos definem melhor: sensual ou analítico; isto é, as nossas paixões residem principalmente em prazeres mundanos ou intelectuais?

    Se somos do tipo que é feliz com prazeres mundanos, beleza, conforto, podemos nos beneficiar mais da observação do corpo.  Isso porque quando observamos o corpo percebemos facilmente que ele não é confortável, que é da natureza da insatisfação, podemos desapegar deste corpo.  Já aqueles que pensam demais, que vivem entretidos em suas cabeças, devem começar por observar a mente e o turbilhão de pensamentos, percebendo que também se distinguem da mente.

    Resumindo: se formos principalmente motivados pelos sentidos, devemos observar corpo primeiro. Se formos analíticos, devemos observar a mente primeiro. 

    As outras duas áreas que devem ser observadas de acordo com os ensinamentos de Buda sobre os quatro fundamentos da atenção, o Satipatathana Sutta, são sentimentos (Vedana-Nupassana) e a verdadeira natureza dos fenômenos (Dhamma-Nupassana). Não devemos meditar nessas áreas até que nossas mentes estejam um pouco mais avançadas, um pouco mais maduras para sabedoria. Observe a mente e o corpo primeiro, pois eles são fundamentais.

    Atenção no corpo

    Ao observamos o corpo, não devemos ficar imersos nele.  A mente deve estar independente e assistir à distância como se estivéssemos observando outra pessoa. 

    Vemos este corpo em pé, andando, sentado e deitado. A mente é observadora. Quando praticarmos dessa maneira, percebemos diretamente que o corpo não somos nós. Não há necessidade de pensar nisso; o corpo será claramente e diretamente visto como não-nós ou nosso (anatta). O corpo se levanta, caminha, senta e deita e a mente observa.

    É assim que se observa o corpo. Um dia a verdade mostrará que o corpo é apenas carne e ossos, água, calor e movimento. O corpo está sob constante opressão pela insatisfação (dukkha), sempre em algum tipo de desconforto.

    Então a mente ordena que o corpo se mova ou aja para tentar aliviar o desconforto. Quando praticarmos corretamente, descobriremos as verdadeiras características do corpo por nós mesmos.

    A prática básica de meditação sobre o corpo é a atenção na respiração, como explicada nesse post. Contudo, é recomendável que você mude seu foco depois de dominar sua respiração, sentindo todo o seu corpo holisticamente. O que você ganha desta prática também é a atenção plena, mas é uma atenção plena que é livre para observar outras ocorrências ou emoções.

    Sinta todo o seu corpo

    1. Sinta todo o seu corpo através de intensa observação. Observe seu corpo de cima para baixo, da cabeça aos dedos dos pés.
    2. Observe cada parte do corpo: em detalhes, a frente e as costas, o topo, a base, as laterais. Por exemplo, se você está observando seu braço, observe-o de cima para baixo, de frente, de trás, e dos lados.
    3. Em seguida, passe para outra parte do corpo e faça o mesmo.
    4. Quando terminar de observar todas as partes do corpo, inverta e recomece de baixo pra cima. Repita essas observações até conseguir dominar essa prática.

    O domínio dessa habilidade é altamente benéfico para você, pois é capaz de mover sua consciência para diferentes partes do corpo fortalece sua atenção plena e compreensão clara para que possam ver através seu corpo como o raio-x, seja de frente para trás, de cima para o fundo ou vice-versa. Você pode usar esta técnica para extinguir seu sofrimento durante uma doença.

    A mente, que não se limita a um lugar, mas pode viajar por todas as áreas do corpo, pode desenvolver a atenção plena e a compreensão clara rápida e eficazmente. Este é um método popular na senda dos mestres que pode ajudar a mente a manter a concentração o dia todo. A atenção plena e a compreensão clara tornam-se altamente avançadas.

    Observação holística

    1. Use a atenção plena para observar seu corpo sem se concentrar em qualquer estado particular.
    2. Observe o estado em que as partes do corpo estão: sua posição (cabeça, pescoço, costas e braços) movimentos e sensações.
    3. Veja se você experimenta novas sensações. Observe as sensações. Suas pernas podem sentir frio, então observe isso. Suas costas sentem calor; apenas observe. Quando você sente uma nova sensação, em qualquer lugar do seu corpo, mova sua consciência para lá e sua atenção plena e clara se tornará altamente desenvolvida.

    Essa técnica permite que você use tudo o que acontece com o seu corpo como ferramentas para desenvolver a atenção plena e compreensão, seja sua respiração, funções corporais, sentimentos, pensamento, etc.

    Observe o que aparecer a qualquer momento na mente e aprenda a partir dela. Este método é uma maneira de praticar a atenção plena. Concentração e sabedoria podem ser alcançadas e você se torna ciente de seus campos sensoriais internos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

    A meditação sobre o corpo usando apenas esses dois métodos leva a benefícios. Não há impacto negativo dessa prática. Uma vez que a prática for dominada, você não precisará mais se concentrar em sua respiração.

    Atenção na mente

    Observar a mente é mais fácil do que observar o corpo. É difícil observar o corpo corretamente se a mente não está firmemente enraizada consciência, isto é, se nossa mente tende a escorregar para o objeto de observação.

    Quando observamos a mente, veremos que há duas coisas que surgem em cada momento: um fenômeno mental e consciência. Isto é porque a consciência de alguém não surge a menos que haja um fenômeno mental – eles aparecem em uníssono. 

    Não podemos observar a mente sem fenômenos mentais (cetasika) porque a mente não tem corpo ou forma própria. Então, primeiro devemos observar cada fenômeno mental, seja ele classificado como sentimento ou sensações (vedãna), memória (sañna) ou pensamento ativo ou formações mentais (sankhara).

    Todos esses fenômenos surgem e decaem em conjunto com a consciência. Por exemplo, às vezes temos uma mente virtuosa e às vezes não. Nossa impressão é que a mente que nos pertence agora é virtuosa, ou é ambiciosa, ou está perdida em pensamentos ou percepções sensoriais. É assim que nós observamos em primeiro lugar. Mas quando surgir a mente madura com sabedoria, ela verá claramente que consciência é uma coisa e ambição é outra. Consciência é uma coisa e não gostar é outra. Consciência é uma coisa e pensamento é outro. Eles se mostrarão como processos separados e distintos. 

    Os meditadores devem constantemente aplicar plena consciência do presente simplesmente reconhecendo a existência e natureza desses fenômenos mentais. Não há intervenção consciente envolvida para suprimir um pensamento ou incentivar outro. É um processo simples e descomplicado de reconhecer as realidades como são, um puro ato psicológico de desapego compreensão e aceitação.

    Ao praticar continuamente de acordo com esse método, não apenas passa a entender-se melhor, mas eventualmente penetrará profundamente nos confins mais remotos da própria consciência. Esse tipo de prática contribui substancialmente para a paz e harmonia, tanto do indivíduo como da sociedade.

    Mais tarde seremos capazes de observar diretamente a sua verdadeira natureza (Dhamma-Nupassana). Mas primeiro, continue assistindo e conhecendo os fenômenos que surgem na mente. Se já praticamos uma certa técnica de meditação que envolve vigiar o corpo e/ou a mente, é recomendável que fiquemos com ela.

    Não há necessidade de parar ou mudar o que fazemos. Quando entendemos os princípios corretamente, devemos integrá-los em nossa prática atual. Nossa postura e técnica não são nem um pouco relevantes. Podemos apenas continuar praticando qualquer que seja o estilo que aprendemos no passado, embora devamos trazer uma compreensão para isso. Se os princípios fundamentais por trás de nossa prática são inexistentes ou mal interpretados, não importa quão graciosamente estejamos sentados; não praticaremos Vipassana e o que fazemos não levará ao Insight.


    A origem do ensinamento

    Textos traduzidos por mim, retirados do livro Walk to be the knower de Phra Anek Thanissarapoti. Recebi este livro como presente durante um retiro de vipassana num monastério tailandês. Me pediram para espalhar a palavra e divulgar o ensinamento. É o que busco realizar ao disponibilizar esse conteúdo aqui.

    “Andar para ser o conhecedor” é a maneira de praticar meditação com a concentração certa para despertar nossa mente para fora do mundo do pensamentos e das fabricações.
    O objetivo deste livro é apenas orientar os estrangeiros a compreender melhor a prática da Meditação Vipassana e o Budismo.


  • Os ensinamentos do Buda, particularmente sua prática de meditação, visam alcançar um estado de perfeita saúde mental, tranquilidade da mente e compreensão da realidade. O budismo aborda diferentes habilidades mentais, modos de funcionamento ou qualidades da consciência. Em Pali, a língua original da literatura Theravada, eles são chamados Vipassana e Samatha.

    Vipassana pode ser traduzido como “Insight”, uma consciência clara do que está acontecendo exatamente como acontece. Samatha pode ser traduzido como “concentração” ou “tranquilidade”. É um estado em que a mente é levada a descansar, focada apenas em um item e sem permissão para vagar. A maioria dos sistemas de meditação enfatiza o componente Samatha.

    Em Samatha, o meditador concentra sua mente em alguns itens, como a respiração, um mantra, a chama de uma vela, uma imagem religiosa ou qualquer objeto e exclui todos os outros pensamentos e percepções de sua consciência. O resultado disso é um estado de êxtase que dura até o meditador terminar a sessão.

    O próprio Buda estudou essas práticas de yoga sob diferentes mestres e alcançou os mais altos estados místicos; mas não se satisfez com eles, porque não proporcionaram uma visão da Realidade Suprema. Para o propósito de libertação do sofrimento, até mesmo manter-se em concentração profunda por longos períodos pode ser considerado uma distração e um apego.

    É aí que entra o aspecto fundamental de Vipassana dentro da prática budista para aprender a verdade sobre o corpo e a mente que consideramos nossos. A verdadeira libertação, o fim do sofrimento, não está em tentar tornar a mente permanentemente feliz ou pacífica, mas em conhecer a natureza do corpo e da mente e praticar o desapego de ambos. É um método analítico baseado na atenção, consciência, vigilância e observação. 

    Os dois braços da meditação

    Imagine que você precisa cortar madeira com um machado. Para ter sucesso, o machado precisaria ser afiado e razoavelmente pesado. É claro que, mesmo com grande esforço, nem uma lâmina de barbear nem um taco de beisebol fariam o serviço. O peso é Samatha. A afiação é Vipassana

    Samatha significa calma, tranquilidade e serenidade. Vipassana significa sabedoria, discernimento e visão clara. Quando ambos estão presentes, o coração e a mente de uma pessoa estão em equilíbrio. 

    Samatha é unificador, aceita incondicionalmente, é não discriminante, imóvel, brilhante, radiante, internamente silencioso e feliz. É uma paz de espírito holística. Vipassana, por outro lado, surge do lado discriminador da mente. Disseca, analisa, compara, contrasta e penetra. Observa e entende a natureza mutável, insatisfatória e altruísta de todos os fenômenos físicos e mentais condicionados.

    Enquanto Samatha gera energia, Vipassana coloca-o para trabalhar. São aspectos inter-relacionados e de apoio mútuo necessários para um caminho harmonioso de prática meditativa. Juntos, Samatha e Vipassana trabalham para libertar a mente.

    Na tradição das florestas tailandesas, Samatha e Vipassana andam de mãos dadas. Precisamos ter um pouco de sabedoria para sentar e meditar em primeiro lugar. Em seguida, descobrimos um pouco de calma que nos ajuda a ver a vida com mais clareza. A clareza leva a viver uma vida mais sábia e virtuosa, que oferece alguma serenidade. A serenidade então apoia a contemplação. Concentrar a atenção nos defeitos inerentes e na falta de confiabilidade do mundo externo leva ao desapego e, à medida que o coração busca cada vez mais a felicidade, a serenidade se aprofunda e o insight é despertado.

    O objetivo da prática

    Quando praticamos Vipassana com frequência surge a sabedoria – conhecemos a verdadeira natureza do corpo e da mente. Esse tipo de sabedoria é chamado entendimento correto (sammādhitti). Compreendemos que o corpo e a mente são impermanentes, sofrem e não são nós mesmos. Quando temos sabedoria suficiente para ver a verdade disso de maneira clara e autêntica, a consciência pode então deixar de lado qualquer apego ao corpo e à mente e automaticamente passa a conhecer o nirvana (Nibbāna), o fim do sofrimento.

    Se praticarmos observando bastante o corpo e a mente, um dia veremos realmente que o corpo e a mente são apenas agregados, elementos da natureza, frações da terra. Não somos corpo, não somos mente, nem corpo e mente pertencem a nós. Quando vemos a verdade de que não há nada que possamos constituir como nós mesmos, alcançaremos o primeiro estágio da iluminação chamado entrada de fluxo (sotāpanna).

    Se continuarmos observando o corpo e a mente cuidadosamente, a ponto de deixar de lado todo apego a eles, então nos tornaremos um arahant – alguém que acabou completamente com o sofrimento. Um arahant não é alguém capaz de tornar a mente algo permanentemente bom ou criar felicidade permanente ou paz permanente. Ele ou ela é alguém que não se interessa mais por essas coisas. Paz, felicidade e afins são empreendimentos mundanos. Um arahant conhece a futilidade em tentar buscar a satisfação por meio de medidas mundanas. Ele ou ela conhece a verdadeira natureza do corpo e da mente e está além de qualquer apego a eles.

    Como meditar

    Praticando a concentração de Samatha

    A primeira etapa é praticar a concentração de Samatha. Existem inúmeras formas de fazê-lo, mas a tradição das florestas tailandesas ensina a seguinte:

    1. Para começar a prática, você deve sentar-se em uma posição confortável, de pernas cruzadas no chão ou sentado numa cadeira. É importante sentar-se corretamente para para respirar, facilitando a observação da inspiração e expiração.

    2. Uma vez sentado, preste atenção e foque no nariz. Ao inspirar você diz consigo mesmo “Bhud” e ao expirar diz para si mesmo “Dho“. Apenas esteja ciente quando estiver expirando ou inspirando, sem controlar a respiração. Você pode respirar fundo algumas vezes e depois deixar fluir naturalmente.

    3. Observe sua inspiração e expiração quando a respiração estiver profunda e às vezes curta. Analise a sensação quando você tem com uma respiração longa e uma respiração curta. Como é diferente?

    4. Observe a área em que sua inspiração faz contato com as narinas quando inspira. Observe a área em que a expiração faz contato quando você expira. Depois disso, concentre-se no ponto em que você sente sua inspiração e expiração toda vez e preste atenção apenas neste local. Continue respirando “Bhud” expirando “Dho“.

    5. Com essa técnica da prática Samatha o objeto de meditação que escolhemos deve tornar a mente feliz e a mente deve desfrutar assistindo. Se nossa mente gosta de respirar e se sente bem assistindo à respiração, então usamos a respiração. Se se satisfaz com o mantra “buddho” então usamos um mantra. O que quer que façamos, a mente deve estar confortável em acompanhar o objeto. Quando a mente está muito feliz com algo, é fácil se concentrar nele. Não vai a lugar nenhum por conta própria. Esta é a atitude que precisamos para trazer a mente para os estados pacíficos de concentração de absorção ou jhana

    A concentração de Samatha nos dá uma mente calma e pacífica, mas não uma sabedoria. Temos que dar o próximo passo para a meditação Vipassana ou Insight.

    Praticando a observação de Vipassana

    Usamos o objeto de meditação como pano de fundo e a observação da mente em primeiro plano. É preciso encontrar a qualidade observadora da mente. Devemos agir como uma platéia assistindo uma peça, não pular no palco para tocar junto com os atores. 

    Enquanto observamos a mente, quando vemos um pensamento surgir, devemos perceber o pensamento. Quando a mente sai pensando devemos perceber. Nós não tentamos impedir a mente de pensar. Deixamos seguir o fluxo de pensamentos, mas percebemos o que a mente está pensando.

    Vamos dar o exemplo do mantra “Buddho” como nosso objeto de meditação. Praticamos Samatha. Mantemos alegremente nossa atenção na palavra repetida “Bhuddho”. A mente eventualmente fica com e se apega a “Bhuddho“. Torna-se calma e pacífica. Se estamos praticando Vipassana, mantemos a mente em “Bhuddho” da mesma forma, mas nossa perspectiva é diferente.

    Em vez de ficar com “Bhuddho” para alcançar a calma, nosso objetivo é reconhecer cada vez que a mente deixa “Bhuddho” e reconhecer cada vez que a mente se concentra demais nela. É como se estivéssemos na margem do rio e observando o fluxo da água rio abaixo. Notamos a água que corre mas não alteramos a qualidade do fluxo.

    Após um tempo de prática conseguimos alcançar uma estabilidade. Estabilidade significa que a mente permanece enraizada na consciência; não está ligada aos fenômenos e não entra neles. Também não se perde em gostar ou não gostar do que surge. É imparcial, equânime.

    É importante saber que não estamos praticando isso para tentar manter a mente pacificamente com o objeto. Se escolhermos a respiração, nosso objetivo não é ficar com a respiração. Estamos apenas tentando ver o que o mente faz a partir deste lugar. Começamos respirando e depois a mente vai pensar. Sabemos que foi pensar. A mente volta ao objeto, e sabemos que ele voltou ao objeto. A mente desvia o pensamento novamente, e sabemos que foi pensar novamente.

    Fazemos isso repetidamente e a mente estável, que tem o tipo correto de concentração irá surgir. Surgirá apenas por um momento muito curto cada vez que observamos que a mente se move para pensar, ver, ouvir ou sentir. Quando nós observamos que a mente saiu para pensar, nesse momento vivenciamos a mente estável ou atenção correta.

    Realizando essa prática repetidamente alcançaremos cada vez mais períodos de mente estável. A mente será leve, brilhante e confortável, e será observadora do corpo e da mente. Não se perde ou se concentra demais. Deve saber quando algo está surgindo, mudando e desaparecendo.

    Por exemplo, quando está feliz, saiba que a felicidade surgiu; quando a felicidade acabar, saiba que a felicidade desapareceu. Quando houver raiva, saiba que a raiva surgiu; e quando a raiva acabar, saiba que a raiva desapareceu. Quando a mente tem desejo e se apega a sentir objetos através dos olhos, ouvidos, nariz, boca, corpo ou mente, esteja ciente da força do desejo em ação.

    O equilíbrio é necessário

    A meditação Vipassana  é bem-sucedida em ajudar as pessoas a trazer entendimento para suas vidas e a libertar seus corações da dor e do sofrimento na medida em que é praticada em equilíbrio com Samatha.

    Algumas pessoas têm um dom natural para a concentração e não precisam desenvolvê-lo. Isso é muito raro na atualidade. Parece que trazer a mente para uma quietude interior concentrada e silenciosa era muito mais fácil nos tempos pré-modernos. Precisamos ser abertos e admitir: nós da geração atual, criados em sociedades de ritmo acelerado com acesso à internet, altamente educadas e cheias de informações, precisamos de serenidade

    A maioria das pessoas está desequilibrada ao lado de uma deficiência de Samatha. O lado analítico de Vipassana já está bem desenvolvido, mas sem a energia concentrada da atenção constante, as “idéias” não têm muito poder para transformar nossas vidas.

    A mente e o corpo estão correndo à procura de objetos para trazer felicidade constantemente. No entanto, se a mente já estiver satisfeita com o objeto com o qual está envolvida, ela não procurará outra coisa. Isto é o segredo da devida meditação Samatha. É assim que podemos parar a mente ocupada e ter um tempo de paz e descanso. Samatha tem um propósito importante. Precisamos descansar a mente para que ela tenha poder e fortaleza.

    Se não praticarmos Samatha nossa prática de Vipassana será muito prejudicada. Não temos coragem e força para continuar a prática. Aqueles de nós que observam bem a mente verão que ela não pode seguir o caminho da sabedoria o tempo todo. Será preciso descansar. A mente se moverá automaticamente para Samatha às vezes, permanecendo imóvel em um só lugar. De fato, é mais frequente que o Vipassana. A sabedoria surge apenas por um curto período de tempo, e então a mente fica quieta novamente. 

    Uma palavra de advertência para aqueles que preferem observar a mente: mantenha a prática de Samatha também. Isto é essencial para manter a mente fresca e poderosa o suficiente para percorrer bem o caminho da sabedoria. A sabedoria pode surgir brevemente e, em seguida, a mente dispara em uma tangente de pensamento.

    Aqueles que preferem a prática de Samatha terão problemas para fazer Vipassana por períodos mais longos e também devem ter cuidado.  A mente pode estar descansando bem por um tempo, mas depois entra em transe ou estados de sonho, comprometendo a prática.


    A origem do ensinamento

    Textos traduzidos por mim, retirados do livro Walk to be the knower de Phra Anek Thanissarapoti. Recebi este livro como presente durante um retiro de vipassana num monastério tailandês. Me pediram para espalhar a palavra e divulgar o ensinamento. É o que busco realizar ao disponibilizar esse conteúdo aqui.

    “Andar para ser o conhecedor” é a maneira de praticar meditação com a concentração certa para despertar nossa mente para fora do mundo do pensamentos e das fabricações.
    O objetivo deste livro é apenas orientar os estrangeiros a compreender melhor a prática da Meditação Vipassana e o Budismo.


  • Durante a minha estadia no retiro de vipassana do monastério Wat Pa Tam Wua, tive a sorte de participar ativamente da série de festividades que precedem a construção de um novo templo budista tailandês.

    Fui recebida por Mr. Pong, o leigo residente do monastério que faz o acolhimento dos visitantes. Com um enorme sorriso, ele me deu as boas vindas e disse que a minha chegada naquele dia denotava um karma muito positivo, com grandes méritos acumulados no passado.

    Achei que ele mandasse esse papo pra todos, mas logo descobri que aquele realmente era um momento crucial para toda a comunidade que vive nos arredores do Wat Pa Tam Wua.

    A construção de um novo templo

    Depois de instalada no alojamento e propriamente vestida com as roupas brancas, participei da minha primeira entoação de cânticos. Pouco antes da meditação começar, o Abade do monastério deu as boas vindas aos recém-chegados e anunciou as particularidades da nossa estadia.

    Nós poderíamos aproveitar a rotina do retiro de meditação por alguns dias, mas muito em breve ela seria interrompida por um evento que ocuparia um dia todo. O monastério receberia centenas de moradores da região e as acomodações seriam privilegiadas para visitantes ilustres que viriam de longe – teríamos que nos apertar um pouco nos alojamentos.

    Tudo isso para a realização de uma cerimônia muito importante para os tailandeses: a consagração de um novo templo budista.

    Preparações para o grande dia

    A comunidade estava muito orgulhosa de finalmente conseguir os fundos para construir um templo para o monastério, que até então só contava com dois salões para as práticas meditativas. Essa nova fase se devia em grande parte ao sucesso do retiro e das doações que recebem dos estrangeiros que o visitam, além, claro, do apoio da população e governo locais.

    Os monges do Wat Pa Tam Wua têm muito carinho pelo projeto do retiro e fizeram questão de incluir seus participantes nas atividades. Nós tivemos uma posição central nas cerimônias e algumas horas do dia anterior ao evento foram dedicadas à ensaios gerais para garantir nossa boa compostura e compreensão dos rituais que seriam realizados.

    A chegada da comunidade

    Depois de aproveitar alguns dias da rotina do retiro observei o cenário todo se transformando. Dezenas de famílias chegaram ao Wat Pa Tam Wua e se instalaram em barracas nos gramados. Muitas delas vieram vender roupas e alimentos na estradinha que fica na entrada do monastério.

    Eu que antes estava alojada em um lindo kuti de madeira, dividindo com apenas duas mulheres, tive que ser realocada para o gramado. A preferência era dada às famílias. Então eu e muitos visitantes do monastério passamos alguns dias dormindo em barracas.

    Fiquei impressionada com a organização e otimização do espaço. Vieram muitas pessoas e ninguém ficou desconfortável por isso. Todos tinham acesso aos banheiros e chuveiros, que eram limpos coletivamente e estavam sempre em ótimo estado mesmo com a quantidade de pessoas fazendo uso. Realmente um exemplo de convivência comunitária.

    Um novo espaço sagrado

    Finalmente, após muitos preparos, chegou o dia da festa. Monges de outras regiões, políticos influentes, famílias ricas, famílias pobres, veio todo tipo de gente assistir os rituais.

    A primeira cerimônia do dia foi a consagração do terreno onde será construído o novo templo. Foram colocadas estacas de madeira nos lugares onde as pilastras do templo serão erguidas e existe toda uma especificidade ao redor dessas estacas, que são 9 em cada pilastra. Cada uma é feita de um tipo de madeira diferente.

    A comunidade foi divida em pilastras diferentes para todos participarem do ritual. Nós, estrangeiros, ficamos ao redor de uma pilastra e pudemos realizar a nossa parte. Usando um martelinho de madeira especial para isso, as pessoas iam martelando as estacas enquanto cânticos eram entoados para dar suporte à ação. Cada um colocando um pouco de sua própria energia nos fundamentos do novo templo.

    Havia uma sintonia muito especial e um quê de inacreditável. Eu não esperava que fosse ser tão bonito de participar e assistir. Aquele monte de gente unida e concentrada realmente me emocionou.

    Com os fundamentos do templo devidamente abençoados, seguimos todos para o próximo ritual. Cada um foi carregando o próprio assento e atravessando o terreno do monastério em direção às caldeiras extremamente quentes que estavam queimando há dias por um motivo bem especial.

    A estátua de Buda

    As caldeiras estavam derretendo ouro e outros metais para a construção da estátua central do templo, que tem enorme importância para os fiéis e monges.

    O molde de mais de 2 metros de altura para a estátua do Buda estava pronto para ser preenchido com os metais e todas as pessoas vieram participar desse momento. Todos unidos entoando cânticos, literalmente conectados pelo sai sin (barbante).

    Nos foram entregues pequenas placas douradas para escrevermos nossos nomes e datas de nascimento. Em seguida juntaram as plaquinhas de toda a comunidade e as fundiram junto com o ouro que revestiria a estátua de Buda. Nossos caminhos ali se entrecruzaram e para sempre ficarão marcados naquela estátua, dentro daquele templo.

    Thod Kathin

    Após as cerimônias relacionadas ao novo templo, tivemos também um ritual que acontece anualmente em todos os países onde o budismo theravada predomina. Na Tailândia é chamado de Thod Kathin.

    O Thod Kathin nada mais é do que a oferenda de trajes e utensílios de uso pessoal aos monges. No Wat Pa Tam Wua fomos nós, estrangeiros, que realizamos a entrega dos trajes monásticos doados pela comunidade. Foram nos chamando pelo nosso país de origem, pra denotar a grande variedade de visitantes que eles recebem. Surpreendentemente foi uma lista de mais de 20 países!

    Não consegui registrar nada desse momento. Estava no centro das atenções tentando não errar minha hora de entregar as vestes e fazer as reverências corretas para os monges…

    Momentos de abundância

    Por fim, após o Thod Kathin, tivemos a felicidade de comer um almoço cozinhado pelas famílias que vieram se hospedar no monastério. Cada família estava com uma barraquinha servindo uma iguaria tailandesa diferente.

    Tinham sobremesas e até uma barraca especializada em café. Comemos muito e à vontade, burlando o sexto preceito de se abster de alimento após o meio dia. Os monges pararam ao meio dia, mas o povo seguiu com o banquete por um tempo!

    A maior parte das pessoas deixou o monastério após esse almoço e nós do retiro passamos o resto da tarde organizando o espaço. Lavamos louça, organizamos pratos e talheres e movemos as cadeiras de lugar para serem recolhidas por caminhões (eram centenas de cadeiras, foi muito trabalho!).

    Foi um dos dias mais incríveis da minha vivência na Tailândia. Vou guardar esse vislumbre de harmonia e paz durante toda a minha vida e espero um dia poder retornar ao Wat Pa Tam Wua e visitar o templo que ajudei a consagrar 🙂

    Pra se inspirar

    A recitação dos cânticos foi definitivamente um dos aspectos da vivência religiosa theravada que mais me marcaram. Fica aqui o registro de um dos cânticos mais entoados, que abriu e fechou todas as cerimônias desse dia:

    Namo Tassa Bhagavato Arahato Sammā Sambudhassa (3x)
    Homenagem ao Abençoado, o Exaltado, o Perfeitamente Iluminado;
    Buddham Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Dhammam Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Sangham Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)
    Dutiyampi Buddham Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Dutiyampi Dhammam Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Dutiyampi Sangham Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)
    Tatiyampi Buddham Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Tatiyampi Dhammam Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Tatiyampi Sangham Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)

    Saiba mais sobre outros tipos de cânticos budistas neste post.


  • Fazer um retiro de meditação foi definitivamente um ponto alto da minha experiência na Tailândia. Conviver com monges dentro de um monastério budista me trouxe uma riqueza enorme de aprendizados sobre a cultura tailandesa e entendimento sobre os ensinamentos de Buda, conforme são estudados e absorvidos pela escola Theravada.

    Existem ínumeros monastérios pela Tailândia onde leigos tailandeses e estrangeiros podem fazer um retiro de meditação vipassana. É prática comum de turistas interessados em meditação e há várias modalidades de retiros, com diferentes níveis de rigidez. São totalmente gratuitos e operam à base de doações dos frequentadores e moradores da região.

    Retiro-escola

    Na maioria dos retiros de vipassana o silêncio é mandatório e são proibidos livros e escrita em cadernos. Optei pelo Wat Pa Tam Wua pela flexibilidade e proposta de retiro-escola. O silêncio é totalmente opcional – quem está em silêncio usa uma plaquinha indicativa. Eles dispõe de uma biblioteca com centenas de livros em diversas línguas sobre vipassana e budismo e alguns monges falam inglês e se dispõe a conversar e responder perguntas.

    Diferente de um retiro estritamente meditativo, no Wat Pa Tam Wua encontramos uma proposta mais educativa. Mesmo com uma programação extensa de muitas horas de meditação por dia, há um espaço para leitura e troca de ideias com os monges e colegas. Esse equilíbrio entre os dois momentos foi super importante pra mim e apesar de ter vontade de fazer um retiro mais estrito, sinto que saberia muito menos sobre as práticas budistas hoje sem esse espaço de aprendizado.

    Chegando ao Wat Pa Tam Wua

    O monastério fica em uma região de serra no noroeste da Tailândia, muito próximo à fronteira do Myanmar, na província de Mae Hong Son. Vindo de Chiang Mai são algumas horas de estrada.

    Peguei uma van na Arcade Bus Station em Chiang Mai com destino a Pai. São três horas de viagem e o custo é de 150 baht (cerca de 20 reais). Chegando em Pai peguei outra van com destino a Mae Hong Son pelo mesmo valor. Também é possível pegar um songthaew amarelo por 100 baht (por volta de 13 reais), só é bem menos confortável.

    São mais 1h30 de viagem e em ambos os casos é preciso avisar ao motorista que você está indo para o “Forest Monastery”, ele vai parar o carro no meio do caminho entre as duas cidades pra você descer.

    Somos deixados na beira da estrada em frente à uma placa indicando o caminho para o monastério. É preciso andar pouco mais de um quilômetro até lá, mas é impossível se perder na estradinha.

    Nessa caminhada deixamos pra trás o barulho e confusão de estrada e vamos adentrando nesse reino de paz. O visual montanhoso de tirar o fôlego, vegetação muito bem cuidada, silêncio quase completo com exceção dos sons da floresta e cachoeira. Há um ar de familiaridade que me lembrou muito da serra fluminense, me senti super em casa.

    A acolhida

    O monastério está aberto todos os dias da semana e recebe qualquer pessoa sem aviso prévio. Basta chegar lá (preferencialmente durante o dia) e você será muito bem acolhido. Não existe agendamento ou fila. A estadia mínima é de três noites e a máxima de dez. Mas conheci pessoas que acabaram morando no Wat Pa Tam Wua por meses, tudo depende do propósito e de conversa.

    Assim que cheguei fui recebida pela ilustre figura do Mr. Pong, leigo residente do monastério que encaminha todos os recém chegados a seus locais de descanso. É ele quem informa sobre todo o esquema de atividades e realiza o registro de cada visitante (não deixe de levar o passaporte).

    O Mr. Pong é uma figura super alegre, fala inglês muito bem e é quem resolve qualquer problema com os estrangeiros por lá. Orienta sobre as normas de conduta e tira todas as dúvidas.

    Depois de realizar meu registro fui encaminhada junto com outra visitante para nosso kuti. Os kutis são essas pequenas casinhas de madeira, muito simples. Há um espaço para dormir e tem um banheiro com chuveiro (quente!!). Nos entregaram um pequeno travesseiro, cobertor e um finíssimo colchonete. Nos acomodamos e eu nem acreditei que ia ficar naquela belezinha.

    Como explico nesse post, cheguei no Wat Pa Tam Wua numa semana muito agitada. Geralmente há kutis suficientes para todos. Quando não, existem quartos comunais bem maiores para dividir. Na minha estadia eu comecei dormindo num kuti, depois numa barraca no gramado e por último me colocaram num quarto comunal. Mas foi um evento totalmente atípico!

    Aproveitei a movimentação e atitude despojada dos monges nesses últimos dias da minha estadia para fotografar toda a rotina do monastério. Eles liberaram as câmeras para fazermos registros de maneira discreta, uma vez que a ocasião era muito especial.

    Os Oito Preceitos

    As regras de conduta a serem seguidas no monastério são simplesmente os oito preceitos budistas. Devem ser respeitados em qualquer retiro de meditação vipassana, com adição ou não da restrição da fala e leitura.

    1. Abster-se de matar seres vivos;
    2. Abster-se de tomar o que não é dado livremente;
    3. Abster-se do comportamento não casto;
    4. Abster-se de mentir e enganar;
    5. Abster-se de álcool e tóxicos que causem negligência;
    6. Abster-se de comer nos horários proibidos (isto é, após o meio dia);
    7. Abster-se de dançar, cantar, ouvir música, ver espetáculos de entretenimento, de usar ornamentos, usar perfumes e embelezar o corpo com cosméticos;
    8. Abster-se de deitar em leitos elevados ou luxuosos.

    Portanto as refeições são servidas até meio dia e são totalmente veganas. Todos devem vestir apenas vestes brancas, o que é garantido já que eles possuem uma enorme quantidade de roupas brancas para emprestar aos visitantes. Usou, lavou, devolveu. Assim ninguém precisa investir em roupas novas para meditar. Literalmente tudo é gratuito.

    É mantida uma cestinha com crachás à disposição para todos aqueles que desejam manter o silêncio durante a estadia. Neles está escrito “Silent, but happy” (em silêncio, mas feliz), o suficiente para todos ao redor respeitarem seu espaço e não lhe dirigirem a palavra.

    Rotina do monastério

    É impressionante o quanto de meditação se pratica em um único dia no Wat Pa Tam Wua. O melhor é que ainda sobram momentos preciosos para leitura e retirada de dúvidas, e isso só é possível pela programação super estrita que deve obrigatoriamente ser seguida por todos os visitantes.

    HorárioAtividade
    05h00Acordar – Praticar meditação e entoação de cânticos no seu Kuti
    06h30Oferenda de arroz aos monges no Dining Hall
    07h00Café da Manhã
    08h00Prática de meditação no Dhamma Hall
    10h30Oferenda de arroz aos monges no Dining Hall
    11h00Almoço
    13h00Prática de meditação no Dhamma Hall
    16h00Limpeza do monastério
    17h00Tempo livre
    18h00Entoação de cânticos e meditação no Chanting Hall
    20h00Prática de meditação individual nos Kutis
    22h00Hora de dormir

    Ritual matinal

    Esse é um dos momentos mais gostosos do dia. Acordamos bem cedinho antes do nascer do sol, meditamos individualmente nos dormitórios e depois seguimos para o Dining Hall para realizar a cerimônia de oferta de arroz aos monges.

    Na mesa do café da manhã temos um panelão enorme cheio de arroz. Cada um pega um pequeno prato com arroz, se dirige ao salão e senta numa fileira. Silêncio total.

    Depois de alguns minutos o silêncio é interrompido pela figura super carismática do abade Ajahn. Ele dá bom dia pessoalmente para cada visitante com um sorriso largo no rosto. Faz comentários sobre o clima, pergunta como foi a noite de todos e a meditação matinal de cada um – de forma sarcástica, sabendo que a maioria de nós ficou dormindo até a hora do café.

    Os monges finalmente chegam ao salão, cada um com sua tigela de mendicância. Eles vem passando por nós com as tigelas e vamos dando uma colherada de arroz para cada um. No fim todos os monges estão abastecidos de arroz para o café da manhã a partir de uma pequena contribuição de cada visitante. Um ato simbólico que fazia todo o sentido naquele lugar.

    Depois disso voltamos para as mesas de refeições e nos servimos.

    Alimentação

    Fiquei positivamente surpresa com a comida que nos serviram lá. Simples, saborosa, abundante. A base é o arroz, há uma variedade de ensopados de legumes, mock meats e dependendo do dia algumas opções de frutas também.

    A quantidade era farta e todos podiam repetir sem problemas – importante, já que nos alimentávamos só até o meio dia, cada refeição deveria ser muito farta!

    Eu confesso que levei alguns pacotes de oleaginosas na mochila temendo passar fome com o jejum ao longo do dia. Incrivelmente as duas refeições bem feitas foram suficientes para passar bem o resto do dia sem ficar angustiada pensando em comida.

    Além do café da manhã e do almoço eles oferecem chás, café e chocolate quente o dia inteiro! Existe um tanque de água quente para se servir a qualquer momento. Tomar um chá pela noite e pegar um livro emprestado pra ler era a pedida ideal.

    As práticas meditativas

    Conforme a programação acima, tínhamos grandes blocos de pelo menos 2 horas de meditação. Nossa prática era orientada pelo monge Phra Anek Thanissarapoti, um professor realmente fantástico. Cada sessão de meditação era uma verdadeira aula, não só sobre vipassana, mas também sobre os ensinamentos budistas em geral.

    Phra Anek falava em tailandês e inglês e introduzia um conceito diferente em cada aula. Algumas vezes fazia uso até de power point, o que era totalmente inesperado. O fato é que suas aulas realmente se aprofundavam no propósito da vipassana e os tipos de estados de consciência que devemos buscar alcançar. Era muito mais fácil de entender nossas dificuldades durante a prática e ajudou a nos livrar da carga de expectativas que nossa formação ocidental acaba colocando sobre o sucesso na meditação.

    Fazíamos basicamente três blocos de meditação numa mesma sessão: meditação caminhando, sentados e deitados. Essa última era particularmente difícil pela manhã – não raro alguém era pego roncando.

    Ao fim da meditação da tarde nos era concedido um tempo para fazer perguntas. De forma mais íntima, ficávamos próximos aos monges (embora só os homens pudessem ficar nas fileiras imediatamente ao lado deles) e cada um poderia falar sobre sua prática, dificuldades e dúvidas. Os monges respondiam cada um com muita tranquilidade e interesse.

    Phra Anek é tão empolgado divulgar os ensinamentos da filosofia budista que escreveu um livro-manual especialmente para os visitantes do monastério, chamado Walk to be the knower.

    Fiquei encantada com tanto empenho para passar o conhecimento à frente. Na biblioteca encontrei uma pilha do livro e perguntei ao Mr. Pong se poderia pegar emprestado pra ler. Ele sorriu e disse que o livro era meu. Pediu apenas que passasse para outra pessoa quando terminasse de ler ou ajudasse a traduzir esses ensinamentos na minha língua. Pretendo traduzir e postar grandes trechos desses ensinamentos por aqui.

    Entoando cânticos pela primeira vez

    Uma das atividades que eu mais gostava era a entoação de cânticos antes da última meditação do dia. A primeira vez foi estranho e confuso, mas aprendi a apreciar muito essa prática e carrego ela comigo até hoje com muito carinho.

    Os budistas theravada, diferente de outras escolas, não costumam trabalhar com mantras. A um estrangeiro desavisado pode parecer ser o caso, mas na verdade tratam-se de cânticos. São longos textos dos ensinamentos budistas cantados em páli.

    Foi através desses cânticos que os milhares de suttas foram preservados ao longo dos séculos antes de serem propriamente registrados em linguagem escrita, compondo o que hoje é chamado de Cânone Pali. É por isso que muitas vezes quando lemos um sutta estranhamos o formato e a quantidade de repetições de frases: essa estrutura é consequência da oralidade.

    No Wat Pa Tam Wua a prática de entoação de cânticos é adaptada para o público leigo tailandês e estrangeiro. Os cânticos são simplificados e cantados em três línguas ao mesmo tempo: páli, thai e inglês. É muito engraçado no início, ninguém faz ideia do que está fazendo. Mas em alguns minutos de observação e leitura pegamos o ritmo e conseguimos praticar com o grupo, mesmo sem jamais ter falado uma palavra de páli ou thai.

    Eu tinha ouvido monges entoando cânticos em muitos templos mas jamais imaginei que me veria fazendo o mesmo, nem fazia ideia do que aqueles sons transmitiam. Fiquei muito impactada com o poder dessa prática e estudei mais sobre eles após minha volta do monastério, quando pude conhecer o conceito de paritta.

    Me dediquei a traduzir para o português o Paritta Metta Sutta da melhor maneira que pude. Hoje esse paritta me acompanha diariamente e procuro compartilhá-lo sempre que possível, pois ele provoca uma reflexão amorosa sobre todos os seres, além de carregar palavras entoadas exaustivamente há milênios, assim como a oração do Pai Nosso e Ave Maria aqui no Ocidente.

    Como Buda nos ensinou, a impermanência é uma das três marcas da existência. Minha experiência vivendo num monastério chegou ao fim.

    Vivi momentos que guardo em um espaço muito especial no meu coração e espero um dia poder voltar a visitar essa comunidade única no mundo, como eles gostam de chamar: home away from home (lar longe de casa).

    Recomendo fortemente a todos que planejam uma viagem à Tailândia que reservem alguns dias para esse aprendizado. Em relação aos custos, quem se hospeda em Chiang Mai gasta em torno de 70 reais para ir e voltar do monastério e ainda pode aproveitar para conhecer Pai.

    Sua estadia é 100% gratuita e a doação é espontânea e anônima. Existem caixas para doações espalhadas e envelopes para você depositar a sua doação de forma discreta, sem cobranças, no momento que preferir.

    A contribuição é fundamental para manter o retiro funcionando, mas cada um tem a oportunidade de doar de acordo com seu bolso. Doando pelo menos 100 baht (13 reais) por dia de estadia você já cobre razoavelmente os gastos da sua presença sem ser mão de vaca – o custo de vida lá é bem baixo. Mas é claro que pode doar mais! Lembre-se de quanto você gasta em um dia de turismo.

    Deixando o Wat Pa Tam Wua

    Para voltar do monastério basta avisar ao pessoal. Todas as manhãs um songthaew amarelo passa por lá para buscar visitantes.

    A quantidade de pessoas e carga de produtos que cabe num desses é impressionante! É uma viagem um pouco longa e desconfortável de volta à Pai pois o songthaew é parador e vai deixando/buscando mercadorias no caminho.

    No fim das contas somos deixados na rua principal de Pai, onde podemos pegar uma van de volta para Chiang Mai e definitivamente voltar para a vida na cidade.