Vale a pena assistir. Foi uma experiência envolvente e me diverti, embora vários pontos tenham me incomodado muito.
No primeiro terço fiquei me perguntando se iria suportar até o final, tamanha a minha irritação com os diálogos expositivos. Tudo bem, tem algumas informações importantes para contextualizar o espectador, mas não dava pra colocar uma cartela no início? Ou será que a preocupação é se o americano médio vai ser capaz de ler algumas frases na tela? Complicado, viu…
O ritmo frenético do filme é outra coisa que me assombra. Esse primeiro terço me deu a impressão de estar assistindo a um eterno trailer, de tão frenéticos os cortes. Felizmente depois a montagem dá uma melhorada, e teve um momento glorioso em que uma mesma tomada ficou uns 7 segundos sem corte – vibrei! Como resultado de toda essa correria, as três horas de filme não foram capazes de transmitir o desespero da jornada de dez anos de Odisseu; a impressão que eu tive é que apenas algumas semanas se passaram. Achei isso uma pena.
Fora isso, amei a sonoplastia e os efeitos especiais – são fantásticos, um refresco dessa sobrecarga de IA. A trilha é meio over, acho que mal tem um segundo sem música torando pra socar a emoção que os diálogos mal escritos não dão conta de imprimir… mas ok, não dava mesmo pra esperar sutileza do Christopher Nolan.
Não me incomodam as mudanças na narrativa “original”, acho que ele encontrou várias soluções interessantes para viabilizar essa adaptação. Entretanto, considero uma abordagem hipermaterialista, desprovida de encanto e mistério, de uma história tão permeada pelas divindades. A arte e o figurino também trazem essa sobriedade, apresentando gregos e troianos paupérrimos que nunca tiveram contato com uma tinta. A vibe mais genérica possível.
Dito tudo isso: apesar da perspectiva de Nolan me irritar tanto, fiquei satisfeita de ter assistido. Afinal, é um novo olhar para a Ilíada e a Odisseia, histórias que merecem ser recontadas ad aeternum. Como um blockbuster de ação, é extremamente bem-sucedido. E tem o mérito de propor uma reflexão sobre o básico de decência humana para uma nação que precisa desesperadamente colocar a mão na consciência.

