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  • Os Provadores de Vinagre são um assunto tradicional da pintura religiosa chinesa. A composição alegórica ilustra os três fundadores das principais tradições religiosas e filosóficas da China: o Confucionismo, o Budismo e o Taoísmo. O tema da pintura é interpretado como favorável ao Taoísmo e crítico, talvez um pouco injusto, com as outras duas tradições.

    De todo modo, é uma pintura poderosa que enfatiza fortemente que as experiências desagradáveis não precisam ser evitadas ou eliminadas, mas podem ser apreciadas como parte integrante do fluxo da vida.

    Estão representados três homens reunidos em volta de um barril de vinagre, onde mergulham os dedos e provam de seu conteúdo.  No entanto, suas reações são bem diferentes, como demonstram as expressões estampadas em seus rostos. Como a pintura é alegórica, devemos entender que esses não são provadores comuns de vinagre, mas são representantes dos Três Ensinamentos da China e que o vinagre que estão provando representa a Essência da Vida.

    Os três homens são os mestres Confúcio, Buda e Lao -Tsé, este último autor do mais antigo livro Taoísta, o Tao Te Ching.  Os dois primeiros fazem uma careta e o terceiro sorri.

    Três homens se reuniram em torno de um barril de vinagre. Cada um deles mergulhou um dedo e o tocou na língua. Para K’ung Fu-tzu, o sabor era azedo; para Gautama Buda, o sabor era amargo; para Laozi, o sabor era doce. Todos os três diferentes; todos os três um.

    Confúcio e o Confucionismo

    Confúcio em sua expressão denota a percepção da acidez do vinagre. Em sua visão o estado do mundo ao seu redor estava contaminado. As pessoas viviam em desacordo com os modos respeitáveis do passado; portanto, o “vinagre” azedou com a contaminação da corrupção do governo e do povo. Seu remédio era apresentado como um conjunto de virtudes e etiqueta que alternava o foco de volta à ética e à retidão. Parecia que o vinagre azedo estava estragado e que o objetivo era criar um novo lote.

    Na visão de Confúcio, a vida tinha algo de azeda.  Acreditava ele que o presente estava em descompasso com o passado e a lei dos homens em desarmonia com o Tao do Céu, a lei universal.  Logo, dava grande importância à atitude reverente frente aos ancestrais, ao cerimonial e aos rituais antigos nos quais o imperador, o Filho do Céu, atuava como mediador entre o infinito do Céu e a limitação da Terra.  Sob o confucionismo, a música da corte era metricamente precisa, os passos pré-estabelecidos, o comportamento, a linguagem, tudo girava em torno de um sistema de preceitos extremamente complexo, onde cada rito tinha um propósito e um momento exato, pré-determinado. Confúcio dizia:  ‘Se a esteira não está devidamente estendida, o mestre não senta’.  Isso dá uma ideia de até onde estas coisas eram levadas sob o confucionismo.


    HOFF, Benjamin. O Tao do Pooh. 

    Buda e o Budismo

    Para Siddhartha Gautama, o Buda, o vinagre tem um sabor amargo. Amargo é dar-se conta de que a existência e os fatos não obedecerão aos nossos desejos e projeções, pois a vida apenas é o que é.  Ele acreditava que a amargura da vida poderia ser corrigida pela compreensão da verdadeira natureza do eu e pelo abandono do apego. Em algumas pinturas a reação de Buda é realmente sem emoções, neutra.

    Para Buda, a segunda figura da pintura, a vida na terra era amarga, cheia de apegos e desejos, fontes de sofrimento.  O mundo era visto como um criador de armadilhas, um gerador de ilusões, uma roda cujo giro produzia dor para todas as criaturas.  Para encontrar a paz, o Budismo acha necessário transcender ‘este mundo de pó’ e alcançar o Nirvana, literalmente um estado ‘sem vento’.  Apesar da atitude intrinsecamente otimista dos chineses ter alterado bastante o Budismo após sua chegada da Índia, onde surgiu, mesmo assim seus seguidores tendiam a ver o caminho para o Nirvana obstruído pelo amargo vento da existência humana.

    HOFF, Benjamin. O TAO DO POOH. 

    Um ponto importante no budismo é a idéia do sofrimento, dukkha. Buda não via mundo como corrompido, mas talvez em negação. O sofrimento ou insatisfação é uma parte inevitável da vida e uma das três marcas da existência. A idéia é que ficamos presos nas ilusões deste mundo e nos apegamos à objetos, sentimentos, pessoas, etc, por não percebemos sua impermanência (outra das três marcas, annica).

    Apegar-se ao que não pode durar cria sofrimento. Assim, para Buda, o povo não era corrupto, mas era atormentado por seus apegos. Sua solução deriva da terceira marca da existência, não-eu (anatta). É um pouco difícil de definir, mas a idéia é que nada/ninguém seja “eu” ou “meu” e esses conceitos sejam apenas mais uma ilusão. Quando aceitamos que nada dura, que sofrimento é inevitável e que nosso próprio estado é transitório e está em constante mudança, podemos começar a procurar dentro de nós mesmos a liberdade do desejo e da paz de espírito.

    Lao-Tsé e o Taoísmo

    Lao-Tsé está sorrindo, o único que parece apreciar o vinagre. Embora o vinagre possa ser azedo e amargo, Lao-Tsé admite que este é o sabor que vinagre deveria ter, não lamenta que seja desta forma. Era esse o objetivo e o vinagre que estava provando fazia um excelente trabalho como vinagre.

    A prática taoísta de respeitar a natureza e o propósito de tudo também é como o taoísta vê a essência da vida. O taoísta não é cego para o fato de que a vida pode ser azeda e amarga, mas respeita o que é apenas a vida.

    Se na quebra de ilusão de controle o budismo nos traz um amargor ao afirmar serenamente que o sofrimento será nosso companheiro de jornada, na compreensão taoísta exercitamos o olhar para a vida com a simplicidade e alegria de uma criança. 

    Daniela M. Fuschini Favaro

    No taoísmo, simplesmente, é o que é; o sabor do vinagre é exatamente como deveria ser. Não há razão para ficar com chocado ou corrigi-lo; tem o gosto apropriado. O verdadeiro “sabor” vem da sua reação.

    A idéia de Lao-Tsé não era julgar ou criticar o caminho do mundo, mas aceitá-lo. Se algo é verdadeiro na sua natureza, está de acordo com o Tao e não precisa ser alterado. Interferir no fluxo resulta em perturbação. O melhor remédio é o não-remédio, a não-ação, Wu wei; e viver na prática com compaixão, simplicidade e humildade – os três tesouros do Taoísmo.

    Na pintura, por que Lao-Tsé está sorrindo? Afinal, o vinagre que representa a vida deve certamente ter um sabor desagradável, como indicam as expressões nos rostos dos outros dois homens. Mas, trabalhando em harmonia com as circunstâncias da vida, a compreensão taoísta transforma o que os outros podem perceber como negativo em algo positivo. Do ponto de vista taoísta, a acidez e a amargura vêm da mente interferente e não apreciativa. A própria vida, quando entendida e utilizada para o que é, é doce. Essa é a mensagem dos provadores de vinagre.

    HOFF, BENJAMIN. O TAO DO POOH. 

    Para Lao-Tsé, o mundo não era um criador de armadilhas, mas um professor de lições valiosas. Suas lições precisavam ser aprendidas, assim como suas leis precisavam ser seguidas; então tudo iria bem. Em vez de se afastar do “mundo do pó”, Lao-tsé aconselhou outros a “se juntar ao pó do mundo”. O que ele viu operando por trás de tudo no céu e na terra, ele chamou Tao (DAO), “o Caminho”.

    HOFF, BENJAMIN. O TAO DO POOH. 

    Três formas de encarar a vida

    Esta ilustração alegórica das múltiplas maneiras pelas quais podemos ver o mesmo fenômeno é útil porque demonstra como devemos avaliar a vida. A natureza impermanente da realidade significa que a vida pode ser azeda, amarga e doce em rápida sucessão ou simultaneamente e, portanto, os métodos de correção que Confúcio e Buda endossaram podem ser aplicados juntos ou separadamente para navegar na jornada da vida. Lao-Tsé não viu nenhuma necessidade de corrigir o sabor do vinagre da vida, porque a essência da vida tem um sabor doce quando vivida naturalmente (ou o mais naturalmente possível).

    Olhando para a pintura, parece racional estar do lado de Lao-Tsé. Ver a beleza inerente a todas as coisas está entre as aspirações mais elevadas do pensamento. Mas todos os três homens representam partes de um todo unificado. Sim, um sabor pode dominar as sensações, mas, ao absorver tudo, descobrimos que a vida é abundante – amarga, doce e tudo mais.

    O importante a lembrar sobre os provadores de vinagre é que ele representa três ideologias que andam de mãos dadas. Os três homens têm reações diferentes à vida, mas todos os três inspiraram maneiras semelhantes de viver a vida, a fim de alcançar a felicidade e a harmonia.

    Todos os três diferentes; todos os três um.

    Todos nós vemos a vida através de nosso próprio conjunto de filtros. Todos nós encontramos maneiras diferentes de lidar com as lutas da vida, de aceitá-las ou de corrigi-las. Nenhum é “errado” ou “melhor” que os outros; eles são simplesmente diferentes. Observe que os homens da imagem não estão discutindo sobre o vinagre ou o que fazer com ele, mas simplesmente reagem à sua maneira.


  • Antes de praticarmos, precisamos nos observar e determinar onde estão nossas habilidades. Devemos discernir qual desses dois os principais tipos de personalidade nos definem melhor: sensual ou analítico; isto é, as nossas paixões residem principalmente em prazeres mundanos ou intelectuais?

    Se somos do tipo que é feliz com prazeres mundanos, beleza, conforto, podemos nos beneficiar mais da observação do corpo.  Isso porque quando observamos o corpo percebemos facilmente que ele não é confortável, que é da natureza da insatisfação, podemos desapegar deste corpo.  Já aqueles que pensam demais, que vivem entretidos em suas cabeças, devem começar por observar a mente e o turbilhão de pensamentos, percebendo que também se distinguem da mente.

    Resumindo: se formos principalmente motivados pelos sentidos, devemos observar corpo primeiro. Se formos analíticos, devemos observar a mente primeiro. 

    As outras duas áreas que devem ser observadas de acordo com os ensinamentos de Buda sobre os quatro fundamentos da atenção, o Satipatathana Sutta, são sentimentos (Vedana-Nupassana) e a verdadeira natureza dos fenômenos (Dhamma-Nupassana). Não devemos meditar nessas áreas até que nossas mentes estejam um pouco mais avançadas, um pouco mais maduras para sabedoria. Observe a mente e o corpo primeiro, pois eles são fundamentais.

    Atenção no corpo

    Ao observamos o corpo, não devemos ficar imersos nele.  A mente deve estar independente e assistir à distância como se estivéssemos observando outra pessoa. 

    Vemos este corpo em pé, andando, sentado e deitado. A mente é observadora. Quando praticarmos dessa maneira, percebemos diretamente que o corpo não somos nós. Não há necessidade de pensar nisso; o corpo será claramente e diretamente visto como não-nós ou nosso (anatta). O corpo se levanta, caminha, senta e deita e a mente observa.

    É assim que se observa o corpo. Um dia a verdade mostrará que o corpo é apenas carne e ossos, água, calor e movimento. O corpo está sob constante opressão pela insatisfação (dukkha), sempre em algum tipo de desconforto.

    Então a mente ordena que o corpo se mova ou aja para tentar aliviar o desconforto. Quando praticarmos corretamente, descobriremos as verdadeiras características do corpo por nós mesmos.

    A prática básica de meditação sobre o corpo é a atenção na respiração, como explicada nesse post. Contudo, é recomendável que você mude seu foco depois de dominar sua respiração, sentindo todo o seu corpo holisticamente. O que você ganha desta prática também é a atenção plena, mas é uma atenção plena que é livre para observar outras ocorrências ou emoções.

    Sinta todo o seu corpo

    1. Sinta todo o seu corpo através de intensa observação. Observe seu corpo de cima para baixo, da cabeça aos dedos dos pés.
    2. Observe cada parte do corpo: em detalhes, a frente e as costas, o topo, a base, as laterais. Por exemplo, se você está observando seu braço, observe-o de cima para baixo, de frente, de trás, e dos lados.
    3. Em seguida, passe para outra parte do corpo e faça o mesmo.
    4. Quando terminar de observar todas as partes do corpo, inverta e recomece de baixo pra cima. Repita essas observações até conseguir dominar essa prática.

    O domínio dessa habilidade é altamente benéfico para você, pois é capaz de mover sua consciência para diferentes partes do corpo fortalece sua atenção plena e compreensão clara para que possam ver através seu corpo como o raio-x, seja de frente para trás, de cima para o fundo ou vice-versa. Você pode usar esta técnica para extinguir seu sofrimento durante uma doença.

    A mente, que não se limita a um lugar, mas pode viajar por todas as áreas do corpo, pode desenvolver a atenção plena e a compreensão clara rápida e eficazmente. Este é um método popular na senda dos mestres que pode ajudar a mente a manter a concentração o dia todo. A atenção plena e a compreensão clara tornam-se altamente avançadas.

    Observação holística

    1. Use a atenção plena para observar seu corpo sem se concentrar em qualquer estado particular.
    2. Observe o estado em que as partes do corpo estão: sua posição (cabeça, pescoço, costas e braços) movimentos e sensações.
    3. Veja se você experimenta novas sensações. Observe as sensações. Suas pernas podem sentir frio, então observe isso. Suas costas sentem calor; apenas observe. Quando você sente uma nova sensação, em qualquer lugar do seu corpo, mova sua consciência para lá e sua atenção plena e clara se tornará altamente desenvolvida.

    Essa técnica permite que você use tudo o que acontece com o seu corpo como ferramentas para desenvolver a atenção plena e compreensão, seja sua respiração, funções corporais, sentimentos, pensamento, etc.

    Observe o que aparecer a qualquer momento na mente e aprenda a partir dela. Este método é uma maneira de praticar a atenção plena. Concentração e sabedoria podem ser alcançadas e você se torna ciente de seus campos sensoriais internos: olhos, ouvidos, nariz, língua, corpo e mente.

    A meditação sobre o corpo usando apenas esses dois métodos leva a benefícios. Não há impacto negativo dessa prática. Uma vez que a prática for dominada, você não precisará mais se concentrar em sua respiração.

    Atenção na mente

    Observar a mente é mais fácil do que observar o corpo. É difícil observar o corpo corretamente se a mente não está firmemente enraizada consciência, isto é, se nossa mente tende a escorregar para o objeto de observação.

    Quando observamos a mente, veremos que há duas coisas que surgem em cada momento: um fenômeno mental e consciência. Isto é porque a consciência de alguém não surge a menos que haja um fenômeno mental – eles aparecem em uníssono. 

    Não podemos observar a mente sem fenômenos mentais (cetasika) porque a mente não tem corpo ou forma própria. Então, primeiro devemos observar cada fenômeno mental, seja ele classificado como sentimento ou sensações (vedãna), memória (sañna) ou pensamento ativo ou formações mentais (sankhara).

    Todos esses fenômenos surgem e decaem em conjunto com a consciência. Por exemplo, às vezes temos uma mente virtuosa e às vezes não. Nossa impressão é que a mente que nos pertence agora é virtuosa, ou é ambiciosa, ou está perdida em pensamentos ou percepções sensoriais. É assim que nós observamos em primeiro lugar. Mas quando surgir a mente madura com sabedoria, ela verá claramente que consciência é uma coisa e ambição é outra. Consciência é uma coisa e não gostar é outra. Consciência é uma coisa e pensamento é outro. Eles se mostrarão como processos separados e distintos. 

    Os meditadores devem constantemente aplicar plena consciência do presente simplesmente reconhecendo a existência e natureza desses fenômenos mentais. Não há intervenção consciente envolvida para suprimir um pensamento ou incentivar outro. É um processo simples e descomplicado de reconhecer as realidades como são, um puro ato psicológico de desapego compreensão e aceitação.

    Ao praticar continuamente de acordo com esse método, não apenas passa a entender-se melhor, mas eventualmente penetrará profundamente nos confins mais remotos da própria consciência. Esse tipo de prática contribui substancialmente para a paz e harmonia, tanto do indivíduo como da sociedade.

    Mais tarde seremos capazes de observar diretamente a sua verdadeira natureza (Dhamma-Nupassana). Mas primeiro, continue assistindo e conhecendo os fenômenos que surgem na mente. Se já praticamos uma certa técnica de meditação que envolve vigiar o corpo e/ou a mente, é recomendável que fiquemos com ela.

    Não há necessidade de parar ou mudar o que fazemos. Quando entendemos os princípios corretamente, devemos integrá-los em nossa prática atual. Nossa postura e técnica não são nem um pouco relevantes. Podemos apenas continuar praticando qualquer que seja o estilo que aprendemos no passado, embora devamos trazer uma compreensão para isso. Se os princípios fundamentais por trás de nossa prática são inexistentes ou mal interpretados, não importa quão graciosamente estejamos sentados; não praticaremos Vipassana e o que fazemos não levará ao Insight.


    A origem do ensinamento

    Textos traduzidos por mim, retirados do livro Walk to be the knower de Phra Anek Thanissarapoti. Recebi este livro como presente durante um retiro de vipassana num monastério tailandês. Me pediram para espalhar a palavra e divulgar o ensinamento. É o que busco realizar ao disponibilizar esse conteúdo aqui.

    “Andar para ser o conhecedor” é a maneira de praticar meditação com a concentração certa para despertar nossa mente para fora do mundo do pensamentos e das fabricações.
    O objetivo deste livro é apenas orientar os estrangeiros a compreender melhor a prática da Meditação Vipassana e o Budismo.


  • Um cântico budista frequentemente entoado nos monastérios Theravada declara:
    “Estou sujeito ao envelhecimento… sujeito à doença… sujeito à morte…”

    Essa é a tradução padrão da língua Pali para o português, mas a tradução tailandesa é diferente:
    “O envelhecimento é normal para mim… doença é normal… a morte é normal para mim…”

    Comparando as traduções vemos abordagens diferentes para a mesma constatação. É notável a dificuldade com a qual nós ocidentais lidamos com essas questões. Evitamos ao máximo lembrar da impermanência e sofremos profundamente quando o inevitável acontece.

    Você pode pensar que é deprimente repetir essas palavras. Mas não devemos suprimir o conhecimento de nossa fragilidade e impermanência. Esses são os medos que estão nas profundezas da nossa consciência e, para nos libertarmos deles, devemos convidar as lembranças para a nossa consciência e parar de vê-las como inimigas.

    Cinco Lembranças

    As Cinco Lembranças são cinco verdades que Buda apresentou a todos como objeto de contemplação e aceitação. Ele disse a seus discípulos que refletir sobre essas cinco verdades faz nascer os fatores do Caminho Óctuplo. A partir disso, grilhões são abandonados e obsessões destruídas.

    Essas lembranças são encontradas em um sermão do Buda chamado Upajjhatthana Sutta, contido no Sutta-pitaka (Anguttara Nikaya 5:57). 

    1. Sou da natureza de envelhecer; não há como escapar do envelhecimento.

    2. Sou da natureza de adoecer; não há como escapar da enfermidade.

    3. Sou sou da natureza de morrer; não há como escapar da morte.

    4. Tudo o que é querido para mim e todos que eu amo são da natureza de mudar. Não há como escapar da separação.

    5. Eu sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei o herdeiro.

    A luz de consciência e atenção nessas 5 realidades inevitáveis alivia o medo que temos das mesmas, até que o relacionamento que temos com o medo seja totalmente transformado. É como se um monstro que estivesse escondido no armário fosse descoberto, e sob essa luz da atenção plena se revelasse algo diferente do que pensávamos que era. Pode até não ser nem um monstro.

    Sabendo que somos da natureza envelhecer, adoecer e morrer, podemos abraçar nossa saúde, juventude e viver a vida plenamente. Sabendo que a vida é impermanente, podemos abraçar e apreciar nossos entes queridos e aproveitar cada momento que temos com eles. Sabendo que nossas ações são nossos únicos pertences verdadeiros, assumimos a responsabilidade por nossos pontos de vista, pensamentos, palavras e ações, e seguimos na direção da compaixão e compreensão por nós mesmos e pelos outros.

    Upajjhatthana Sutta

    Segue abaixo o trecho do Upajjahatthana Sutta que aprofunda as questões relacionadas às cinco lembranças. Cortesia do Acesso ao Insight.

    “Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve refletir com freqüência que ‘Eu estou sujeito ao envelhecimento, não superei o envelhecimento’? Há seres que estão embriagados com a [típica] embriaguez dos jovens com a juventude. Por causa dessa embriaguez com a juventude, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo … com a linguagem … com a mente. Porém, ao refletir sobre isso com frequência, essa embriaguez dos jovens com a juventude ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida.

    “Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve refletir com freqüência que ‘Eu estou sujeito à enfermidade, não superei a enfermidade’? Há seres que estão embriagados com a [típica] embriaguez das pessoas saudáveis com a saúde. Por causa dessa embriaguez com a saúde, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo … com a linguagem … com a mente. Porém, ao refletir sobre isso com frequência, essa embriaguez das pessoas saudáveis com a saúde ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida.

    “Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve refletir com freqüência que ‘Eu estou sujeito a morte, não superei a morte’? Há seres que estão embriagados com a [típica] embriaguez das pessoas com a vida. Por causa dessa embriaguez com a vida, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo … com a linguagem … com a mente. Porém, ao refletir sobre isso com frequência, essa embriaguez das pessoas com a vida ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida.

    “Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve refletir com freqüência que ‘Eu me tornarei diferente, separado de tudo o que é querido e amado’? Há seres que sentem cobiça e desejo pelas coisas que consideram queridas e amadas. Por causa dessa cobiça e desejo, eles se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo … com a linguagem … com a mente. Porém, ao refletir sobre isso com frequência, esse desejo e cobiça pelas coisas que são queridas e amadas ou é totalmente abandonado ou é enfraquecido.

    “Agora, baseado em que linha de raciocínio alguém deve refletir com freqüência que ‘Eu sou o dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações e tenho as minhas ações como árbitro. O que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei herdeiro’? Há seres que se conduzem de uma forma prejudicial com o corpo … com a linguagem … com a mente. Porém, ao refletir sobre isso com freqüência, essa conduta prejudicial com o corpo, linguagem, e mente ou é totalmente abandonada ou é enfraquecida.

    “Agora, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único sujeito ao envelhecimento, que não superou o envelhecimento, mas sempre que há seres, indo e vindo, falecendo e renascendo, todos esses seres estão sujeitos ao envelhecimento, não superaram o envelhecimento.’ Ao refletir isso com frequência, os [fatores do] caminho surgem. Ele permanece fiel ao caminho, desenvolvendo-o e cultivando-o. Ao permanecer fiel ao caminho, desenvolvendo-o e cultivando-o, os grilhões são abandonados, as tendências subjacentes são destruídas.

    “Além disso, um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único sujeito à enfermidade, que não superou a enfermidade’ … Eu não sou o único sujeito à morte, que não superou a morte’ … ’Eu não sou o único que me tornarei diferente, separado de tudo que é querido e amado’ …

    “Um nobre discípulo considera o seguinte: ‘Eu não sou o único dono das minhas ações (kamma), herdeiro das minhas ações, nascido das minhas ações, relacionado através das minhas ações, tendo as minhas ações como árbitro; que – o que quer que eu faça, para o bem ou para o mal, disso me tornarei herdeiro,’ mas sempre que houver seres, indo e vindo, falecendo e renascendo, todos esses seres serão os donos das suas ações, herdeiros das suas ações, nascidos das suas ações, relacionados através das suas ações e tendo as suas ações como árbitro. O quer que façam, para o bem ou para o mal, disso eles se tornarão herdeiros.’ Ao refletir isso com freqüência, os [fatores do] caminho surgem. Ele permanece fiel ao caminho, desenvolvendo-o, cultivando-o. Ao permanecer fiel ao caminho, desenvolvendo-o e cultivando-o, os grilhões são abandonados, as tendências subjacentes são destruídas.”


  • Os ensinamentos do Buda, particularmente sua prática de meditação, visam alcançar um estado de perfeita saúde mental, tranquilidade da mente e compreensão da realidade. O budismo aborda diferentes habilidades mentais, modos de funcionamento ou qualidades da consciência. Em Pali, a língua original da literatura Theravada, eles são chamados Vipassana e Samatha.

    Vipassana pode ser traduzido como “Insight”, uma consciência clara do que está acontecendo exatamente como acontece. Samatha pode ser traduzido como “concentração” ou “tranquilidade”. É um estado em que a mente é levada a descansar, focada apenas em um item e sem permissão para vagar. A maioria dos sistemas de meditação enfatiza o componente Samatha.

    Em Samatha, o meditador concentra sua mente em alguns itens, como a respiração, um mantra, a chama de uma vela, uma imagem religiosa ou qualquer objeto e exclui todos os outros pensamentos e percepções de sua consciência. O resultado disso é um estado de êxtase que dura até o meditador terminar a sessão.

    O próprio Buda estudou essas práticas de yoga sob diferentes mestres e alcançou os mais altos estados místicos; mas não se satisfez com eles, porque não proporcionaram uma visão da Realidade Suprema. Para o propósito de libertação do sofrimento, até mesmo manter-se em concentração profunda por longos períodos pode ser considerado uma distração e um apego.

    É aí que entra o aspecto fundamental de Vipassana dentro da prática budista para aprender a verdade sobre o corpo e a mente que consideramos nossos. A verdadeira libertação, o fim do sofrimento, não está em tentar tornar a mente permanentemente feliz ou pacífica, mas em conhecer a natureza do corpo e da mente e praticar o desapego de ambos. É um método analítico baseado na atenção, consciência, vigilância e observação. 

    Os dois braços da meditação

    Imagine que você precisa cortar madeira com um machado. Para ter sucesso, o machado precisaria ser afiado e razoavelmente pesado. É claro que, mesmo com grande esforço, nem uma lâmina de barbear nem um taco de beisebol fariam o serviço. O peso é Samatha. A afiação é Vipassana

    Samatha significa calma, tranquilidade e serenidade. Vipassana significa sabedoria, discernimento e visão clara. Quando ambos estão presentes, o coração e a mente de uma pessoa estão em equilíbrio. 

    Samatha é unificador, aceita incondicionalmente, é não discriminante, imóvel, brilhante, radiante, internamente silencioso e feliz. É uma paz de espírito holística. Vipassana, por outro lado, surge do lado discriminador da mente. Disseca, analisa, compara, contrasta e penetra. Observa e entende a natureza mutável, insatisfatória e altruísta de todos os fenômenos físicos e mentais condicionados.

    Enquanto Samatha gera energia, Vipassana coloca-o para trabalhar. São aspectos inter-relacionados e de apoio mútuo necessários para um caminho harmonioso de prática meditativa. Juntos, Samatha e Vipassana trabalham para libertar a mente.

    Na tradição das florestas tailandesas, Samatha e Vipassana andam de mãos dadas. Precisamos ter um pouco de sabedoria para sentar e meditar em primeiro lugar. Em seguida, descobrimos um pouco de calma que nos ajuda a ver a vida com mais clareza. A clareza leva a viver uma vida mais sábia e virtuosa, que oferece alguma serenidade. A serenidade então apoia a contemplação. Concentrar a atenção nos defeitos inerentes e na falta de confiabilidade do mundo externo leva ao desapego e, à medida que o coração busca cada vez mais a felicidade, a serenidade se aprofunda e o insight é despertado.

    O objetivo da prática

    Quando praticamos Vipassana com frequência surge a sabedoria – conhecemos a verdadeira natureza do corpo e da mente. Esse tipo de sabedoria é chamado entendimento correto (sammādhitti). Compreendemos que o corpo e a mente são impermanentes, sofrem e não são nós mesmos. Quando temos sabedoria suficiente para ver a verdade disso de maneira clara e autêntica, a consciência pode então deixar de lado qualquer apego ao corpo e à mente e automaticamente passa a conhecer o nirvana (Nibbāna), o fim do sofrimento.

    Se praticarmos observando bastante o corpo e a mente, um dia veremos realmente que o corpo e a mente são apenas agregados, elementos da natureza, frações da terra. Não somos corpo, não somos mente, nem corpo e mente pertencem a nós. Quando vemos a verdade de que não há nada que possamos constituir como nós mesmos, alcançaremos o primeiro estágio da iluminação chamado entrada de fluxo (sotāpanna).

    Se continuarmos observando o corpo e a mente cuidadosamente, a ponto de deixar de lado todo apego a eles, então nos tornaremos um arahant – alguém que acabou completamente com o sofrimento. Um arahant não é alguém capaz de tornar a mente algo permanentemente bom ou criar felicidade permanente ou paz permanente. Ele ou ela é alguém que não se interessa mais por essas coisas. Paz, felicidade e afins são empreendimentos mundanos. Um arahant conhece a futilidade em tentar buscar a satisfação por meio de medidas mundanas. Ele ou ela conhece a verdadeira natureza do corpo e da mente e está além de qualquer apego a eles.

    Como meditar

    Praticando a concentração de Samatha

    A primeira etapa é praticar a concentração de Samatha. Existem inúmeras formas de fazê-lo, mas a tradição das florestas tailandesas ensina a seguinte:

    1. Para começar a prática, você deve sentar-se em uma posição confortável, de pernas cruzadas no chão ou sentado numa cadeira. É importante sentar-se corretamente para para respirar, facilitando a observação da inspiração e expiração.

    2. Uma vez sentado, preste atenção e foque no nariz. Ao inspirar você diz consigo mesmo “Bhud” e ao expirar diz para si mesmo “Dho“. Apenas esteja ciente quando estiver expirando ou inspirando, sem controlar a respiração. Você pode respirar fundo algumas vezes e depois deixar fluir naturalmente.

    3. Observe sua inspiração e expiração quando a respiração estiver profunda e às vezes curta. Analise a sensação quando você tem com uma respiração longa e uma respiração curta. Como é diferente?

    4. Observe a área em que sua inspiração faz contato com as narinas quando inspira. Observe a área em que a expiração faz contato quando você expira. Depois disso, concentre-se no ponto em que você sente sua inspiração e expiração toda vez e preste atenção apenas neste local. Continue respirando “Bhud” expirando “Dho“.

    5. Com essa técnica da prática Samatha o objeto de meditação que escolhemos deve tornar a mente feliz e a mente deve desfrutar assistindo. Se nossa mente gosta de respirar e se sente bem assistindo à respiração, então usamos a respiração. Se se satisfaz com o mantra “buddho” então usamos um mantra. O que quer que façamos, a mente deve estar confortável em acompanhar o objeto. Quando a mente está muito feliz com algo, é fácil se concentrar nele. Não vai a lugar nenhum por conta própria. Esta é a atitude que precisamos para trazer a mente para os estados pacíficos de concentração de absorção ou jhana

    A concentração de Samatha nos dá uma mente calma e pacífica, mas não uma sabedoria. Temos que dar o próximo passo para a meditação Vipassana ou Insight.

    Praticando a observação de Vipassana

    Usamos o objeto de meditação como pano de fundo e a observação da mente em primeiro plano. É preciso encontrar a qualidade observadora da mente. Devemos agir como uma platéia assistindo uma peça, não pular no palco para tocar junto com os atores. 

    Enquanto observamos a mente, quando vemos um pensamento surgir, devemos perceber o pensamento. Quando a mente sai pensando devemos perceber. Nós não tentamos impedir a mente de pensar. Deixamos seguir o fluxo de pensamentos, mas percebemos o que a mente está pensando.

    Vamos dar o exemplo do mantra “Buddho” como nosso objeto de meditação. Praticamos Samatha. Mantemos alegremente nossa atenção na palavra repetida “Bhuddho”. A mente eventualmente fica com e se apega a “Bhuddho“. Torna-se calma e pacífica. Se estamos praticando Vipassana, mantemos a mente em “Bhuddho” da mesma forma, mas nossa perspectiva é diferente.

    Em vez de ficar com “Bhuddho” para alcançar a calma, nosso objetivo é reconhecer cada vez que a mente deixa “Bhuddho” e reconhecer cada vez que a mente se concentra demais nela. É como se estivéssemos na margem do rio e observando o fluxo da água rio abaixo. Notamos a água que corre mas não alteramos a qualidade do fluxo.

    Após um tempo de prática conseguimos alcançar uma estabilidade. Estabilidade significa que a mente permanece enraizada na consciência; não está ligada aos fenômenos e não entra neles. Também não se perde em gostar ou não gostar do que surge. É imparcial, equânime.

    É importante saber que não estamos praticando isso para tentar manter a mente pacificamente com o objeto. Se escolhermos a respiração, nosso objetivo não é ficar com a respiração. Estamos apenas tentando ver o que o mente faz a partir deste lugar. Começamos respirando e depois a mente vai pensar. Sabemos que foi pensar. A mente volta ao objeto, e sabemos que ele voltou ao objeto. A mente desvia o pensamento novamente, e sabemos que foi pensar novamente.

    Fazemos isso repetidamente e a mente estável, que tem o tipo correto de concentração irá surgir. Surgirá apenas por um momento muito curto cada vez que observamos que a mente se move para pensar, ver, ouvir ou sentir. Quando nós observamos que a mente saiu para pensar, nesse momento vivenciamos a mente estável ou atenção correta.

    Realizando essa prática repetidamente alcançaremos cada vez mais períodos de mente estável. A mente será leve, brilhante e confortável, e será observadora do corpo e da mente. Não se perde ou se concentra demais. Deve saber quando algo está surgindo, mudando e desaparecendo.

    Por exemplo, quando está feliz, saiba que a felicidade surgiu; quando a felicidade acabar, saiba que a felicidade desapareceu. Quando houver raiva, saiba que a raiva surgiu; e quando a raiva acabar, saiba que a raiva desapareceu. Quando a mente tem desejo e se apega a sentir objetos através dos olhos, ouvidos, nariz, boca, corpo ou mente, esteja ciente da força do desejo em ação.

    O equilíbrio é necessário

    A meditação Vipassana  é bem-sucedida em ajudar as pessoas a trazer entendimento para suas vidas e a libertar seus corações da dor e do sofrimento na medida em que é praticada em equilíbrio com Samatha.

    Algumas pessoas têm um dom natural para a concentração e não precisam desenvolvê-lo. Isso é muito raro na atualidade. Parece que trazer a mente para uma quietude interior concentrada e silenciosa era muito mais fácil nos tempos pré-modernos. Precisamos ser abertos e admitir: nós da geração atual, criados em sociedades de ritmo acelerado com acesso à internet, altamente educadas e cheias de informações, precisamos de serenidade

    A maioria das pessoas está desequilibrada ao lado de uma deficiência de Samatha. O lado analítico de Vipassana já está bem desenvolvido, mas sem a energia concentrada da atenção constante, as “idéias” não têm muito poder para transformar nossas vidas.

    A mente e o corpo estão correndo à procura de objetos para trazer felicidade constantemente. No entanto, se a mente já estiver satisfeita com o objeto com o qual está envolvida, ela não procurará outra coisa. Isto é o segredo da devida meditação Samatha. É assim que podemos parar a mente ocupada e ter um tempo de paz e descanso. Samatha tem um propósito importante. Precisamos descansar a mente para que ela tenha poder e fortaleza.

    Se não praticarmos Samatha nossa prática de Vipassana será muito prejudicada. Não temos coragem e força para continuar a prática. Aqueles de nós que observam bem a mente verão que ela não pode seguir o caminho da sabedoria o tempo todo. Será preciso descansar. A mente se moverá automaticamente para Samatha às vezes, permanecendo imóvel em um só lugar. De fato, é mais frequente que o Vipassana. A sabedoria surge apenas por um curto período de tempo, e então a mente fica quieta novamente. 

    Uma palavra de advertência para aqueles que preferem observar a mente: mantenha a prática de Samatha também. Isto é essencial para manter a mente fresca e poderosa o suficiente para percorrer bem o caminho da sabedoria. A sabedoria pode surgir brevemente e, em seguida, a mente dispara em uma tangente de pensamento.

    Aqueles que preferem a prática de Samatha terão problemas para fazer Vipassana por períodos mais longos e também devem ter cuidado.  A mente pode estar descansando bem por um tempo, mas depois entra em transe ou estados de sonho, comprometendo a prática.


    A origem do ensinamento

    Textos traduzidos por mim, retirados do livro Walk to be the knower de Phra Anek Thanissarapoti. Recebi este livro como presente durante um retiro de vipassana num monastério tailandês. Me pediram para espalhar a palavra e divulgar o ensinamento. É o que busco realizar ao disponibilizar esse conteúdo aqui.

    “Andar para ser o conhecedor” é a maneira de praticar meditação com a concentração certa para despertar nossa mente para fora do mundo do pensamentos e das fabricações.
    O objetivo deste livro é apenas orientar os estrangeiros a compreender melhor a prática da Meditação Vipassana e o Budismo.


  • Durante a minha estadia no retiro de vipassana do monastério Wat Pa Tam Wua, tive a sorte de participar ativamente da série de festividades que precedem a construção de um novo templo budista tailandês.

    Fui recebida por Mr. Pong, o leigo residente do monastério que faz o acolhimento dos visitantes. Com um enorme sorriso, ele me deu as boas vindas e disse que a minha chegada naquele dia denotava um karma muito positivo, com grandes méritos acumulados no passado.

    Achei que ele mandasse esse papo pra todos, mas logo descobri que aquele realmente era um momento crucial para toda a comunidade que vive nos arredores do Wat Pa Tam Wua.

    A construção de um novo templo

    Depois de instalada no alojamento e propriamente vestida com as roupas brancas, participei da minha primeira entoação de cânticos. Pouco antes da meditação começar, o Abade do monastério deu as boas vindas aos recém-chegados e anunciou as particularidades da nossa estadia.

    Nós poderíamos aproveitar a rotina do retiro de meditação por alguns dias, mas muito em breve ela seria interrompida por um evento que ocuparia um dia todo. O monastério receberia centenas de moradores da região e as acomodações seriam privilegiadas para visitantes ilustres que viriam de longe – teríamos que nos apertar um pouco nos alojamentos.

    Tudo isso para a realização de uma cerimônia muito importante para os tailandeses: a consagração de um novo templo budista.

    Preparações para o grande dia

    A comunidade estava muito orgulhosa de finalmente conseguir os fundos para construir um templo para o monastério, que até então só contava com dois salões para as práticas meditativas. Essa nova fase se devia em grande parte ao sucesso do retiro e das doações que recebem dos estrangeiros que o visitam, além, claro, do apoio da população e governo locais.

    Os monges do Wat Pa Tam Wua têm muito carinho pelo projeto do retiro e fizeram questão de incluir seus participantes nas atividades. Nós tivemos uma posição central nas cerimônias e algumas horas do dia anterior ao evento foram dedicadas à ensaios gerais para garantir nossa boa compostura e compreensão dos rituais que seriam realizados.

    A chegada da comunidade

    Depois de aproveitar alguns dias da rotina do retiro observei o cenário todo se transformando. Dezenas de famílias chegaram ao Wat Pa Tam Wua e se instalaram em barracas nos gramados. Muitas delas vieram vender roupas e alimentos na estradinha que fica na entrada do monastério.

    Eu que antes estava alojada em um lindo kuti de madeira, dividindo com apenas duas mulheres, tive que ser realocada para o gramado. A preferência era dada às famílias. Então eu e muitos visitantes do monastério passamos alguns dias dormindo em barracas.

    Fiquei impressionada com a organização e otimização do espaço. Vieram muitas pessoas e ninguém ficou desconfortável por isso. Todos tinham acesso aos banheiros e chuveiros, que eram limpos coletivamente e estavam sempre em ótimo estado mesmo com a quantidade de pessoas fazendo uso. Realmente um exemplo de convivência comunitária.

    Um novo espaço sagrado

    Finalmente, após muitos preparos, chegou o dia da festa. Monges de outras regiões, políticos influentes, famílias ricas, famílias pobres, veio todo tipo de gente assistir os rituais.

    A primeira cerimônia do dia foi a consagração do terreno onde será construído o novo templo. Foram colocadas estacas de madeira nos lugares onde as pilastras do templo serão erguidas e existe toda uma especificidade ao redor dessas estacas, que são 9 em cada pilastra. Cada uma é feita de um tipo de madeira diferente.

    A comunidade foi divida em pilastras diferentes para todos participarem do ritual. Nós, estrangeiros, ficamos ao redor de uma pilastra e pudemos realizar a nossa parte. Usando um martelinho de madeira especial para isso, as pessoas iam martelando as estacas enquanto cânticos eram entoados para dar suporte à ação. Cada um colocando um pouco de sua própria energia nos fundamentos do novo templo.

    Havia uma sintonia muito especial e um quê de inacreditável. Eu não esperava que fosse ser tão bonito de participar e assistir. Aquele monte de gente unida e concentrada realmente me emocionou.

    Com os fundamentos do templo devidamente abençoados, seguimos todos para o próximo ritual. Cada um foi carregando o próprio assento e atravessando o terreno do monastério em direção às caldeiras extremamente quentes que estavam queimando há dias por um motivo bem especial.

    A estátua de Buda

    As caldeiras estavam derretendo ouro e outros metais para a construção da estátua central do templo, que tem enorme importância para os fiéis e monges.

    O molde de mais de 2 metros de altura para a estátua do Buda estava pronto para ser preenchido com os metais e todas as pessoas vieram participar desse momento. Todos unidos entoando cânticos, literalmente conectados pelo sai sin (barbante).

    Nos foram entregues pequenas placas douradas para escrevermos nossos nomes e datas de nascimento. Em seguida juntaram as plaquinhas de toda a comunidade e as fundiram junto com o ouro que revestiria a estátua de Buda. Nossos caminhos ali se entrecruzaram e para sempre ficarão marcados naquela estátua, dentro daquele templo.

    Thod Kathin

    Após as cerimônias relacionadas ao novo templo, tivemos também um ritual que acontece anualmente em todos os países onde o budismo theravada predomina. Na Tailândia é chamado de Thod Kathin.

    O Thod Kathin nada mais é do que a oferenda de trajes e utensílios de uso pessoal aos monges. No Wat Pa Tam Wua fomos nós, estrangeiros, que realizamos a entrega dos trajes monásticos doados pela comunidade. Foram nos chamando pelo nosso país de origem, pra denotar a grande variedade de visitantes que eles recebem. Surpreendentemente foi uma lista de mais de 20 países!

    Não consegui registrar nada desse momento. Estava no centro das atenções tentando não errar minha hora de entregar as vestes e fazer as reverências corretas para os monges…

    Momentos de abundância

    Por fim, após o Thod Kathin, tivemos a felicidade de comer um almoço cozinhado pelas famílias que vieram se hospedar no monastério. Cada família estava com uma barraquinha servindo uma iguaria tailandesa diferente.

    Tinham sobremesas e até uma barraca especializada em café. Comemos muito e à vontade, burlando o sexto preceito de se abster de alimento após o meio dia. Os monges pararam ao meio dia, mas o povo seguiu com o banquete por um tempo!

    A maior parte das pessoas deixou o monastério após esse almoço e nós do retiro passamos o resto da tarde organizando o espaço. Lavamos louça, organizamos pratos e talheres e movemos as cadeiras de lugar para serem recolhidas por caminhões (eram centenas de cadeiras, foi muito trabalho!).

    Foi um dos dias mais incríveis da minha vivência na Tailândia. Vou guardar esse vislumbre de harmonia e paz durante toda a minha vida e espero um dia poder retornar ao Wat Pa Tam Wua e visitar o templo que ajudei a consagrar 🙂

    Pra se inspirar

    A recitação dos cânticos foi definitivamente um dos aspectos da vivência religiosa theravada que mais me marcaram. Fica aqui o registro de um dos cânticos mais entoados, que abriu e fechou todas as cerimônias desse dia:

    Namo Tassa Bhagavato Arahato Sammā Sambudhassa (3x)
    Homenagem ao Abençoado, o Exaltado, o Perfeitamente Iluminado;
    Buddham Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Dhammam Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Sangham Saranam Gacchāmi
    Eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)
    Dutiyampi Buddham Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Dutiyampi Dhammam Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Dutiyampi Sangham Saranam Gacchāmi
    Pela segunda vez eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)
    Tatiyampi Buddham Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Buda (Iluminado)
    Tatiyampi Dhammam Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Darma (Ensinamento)
    Tatiyampi Sangham Saranam Gacchāmi
    Pela terceira vez eu vou ao refúgio do Sangha (Comunidade)

    Saiba mais sobre outros tipos de cânticos budistas neste post.


  • Fazer um retiro de meditação foi definitivamente um ponto alto da minha experiência na Tailândia. Conviver com monges dentro de um monastério budista me trouxe uma riqueza enorme de aprendizados sobre a cultura tailandesa e entendimento sobre os ensinamentos de Buda, conforme são estudados e absorvidos pela escola Theravada.

    Existem ínumeros monastérios pela Tailândia onde leigos tailandeses e estrangeiros podem fazer um retiro de meditação vipassana. É prática comum de turistas interessados em meditação e há várias modalidades de retiros, com diferentes níveis de rigidez. São totalmente gratuitos e operam à base de doações dos frequentadores e moradores da região.

    Retiro-escola

    Na maioria dos retiros de vipassana o silêncio é mandatório e são proibidos livros e escrita em cadernos. Optei pelo Wat Pa Tam Wua pela flexibilidade e proposta de retiro-escola. O silêncio é totalmente opcional – quem está em silêncio usa uma plaquinha indicativa. Eles dispõe de uma biblioteca com centenas de livros em diversas línguas sobre vipassana e budismo e alguns monges falam inglês e se dispõe a conversar e responder perguntas.

    Diferente de um retiro estritamente meditativo, no Wat Pa Tam Wua encontramos uma proposta mais educativa. Mesmo com uma programação extensa de muitas horas de meditação por dia, há um espaço para leitura e troca de ideias com os monges e colegas. Esse equilíbrio entre os dois momentos foi super importante pra mim e apesar de ter vontade de fazer um retiro mais estrito, sinto que saberia muito menos sobre as práticas budistas hoje sem esse espaço de aprendizado.

    Chegando ao Wat Pa Tam Wua

    O monastério fica em uma região de serra no noroeste da Tailândia, muito próximo à fronteira do Myanmar, na província de Mae Hong Son. Vindo de Chiang Mai são algumas horas de estrada.

    Peguei uma van na Arcade Bus Station em Chiang Mai com destino a Pai. São três horas de viagem e o custo é de 150 baht (cerca de 20 reais). Chegando em Pai peguei outra van com destino a Mae Hong Son pelo mesmo valor. Também é possível pegar um songthaew amarelo por 100 baht (por volta de 13 reais), só é bem menos confortável.

    São mais 1h30 de viagem e em ambos os casos é preciso avisar ao motorista que você está indo para o “Forest Monastery”, ele vai parar o carro no meio do caminho entre as duas cidades pra você descer.

    Somos deixados na beira da estrada em frente à uma placa indicando o caminho para o monastério. É preciso andar pouco mais de um quilômetro até lá, mas é impossível se perder na estradinha.

    Nessa caminhada deixamos pra trás o barulho e confusão de estrada e vamos adentrando nesse reino de paz. O visual montanhoso de tirar o fôlego, vegetação muito bem cuidada, silêncio quase completo com exceção dos sons da floresta e cachoeira. Há um ar de familiaridade que me lembrou muito da serra fluminense, me senti super em casa.

    A acolhida

    O monastério está aberto todos os dias da semana e recebe qualquer pessoa sem aviso prévio. Basta chegar lá (preferencialmente durante o dia) e você será muito bem acolhido. Não existe agendamento ou fila. A estadia mínima é de três noites e a máxima de dez. Mas conheci pessoas que acabaram morando no Wat Pa Tam Wua por meses, tudo depende do propósito e de conversa.

    Assim que cheguei fui recebida pela ilustre figura do Mr. Pong, leigo residente do monastério que encaminha todos os recém chegados a seus locais de descanso. É ele quem informa sobre todo o esquema de atividades e realiza o registro de cada visitante (não deixe de levar o passaporte).

    O Mr. Pong é uma figura super alegre, fala inglês muito bem e é quem resolve qualquer problema com os estrangeiros por lá. Orienta sobre as normas de conduta e tira todas as dúvidas.

    Depois de realizar meu registro fui encaminhada junto com outra visitante para nosso kuti. Os kutis são essas pequenas casinhas de madeira, muito simples. Há um espaço para dormir e tem um banheiro com chuveiro (quente!!). Nos entregaram um pequeno travesseiro, cobertor e um finíssimo colchonete. Nos acomodamos e eu nem acreditei que ia ficar naquela belezinha.

    Como explico nesse post, cheguei no Wat Pa Tam Wua numa semana muito agitada. Geralmente há kutis suficientes para todos. Quando não, existem quartos comunais bem maiores para dividir. Na minha estadia eu comecei dormindo num kuti, depois numa barraca no gramado e por último me colocaram num quarto comunal. Mas foi um evento totalmente atípico!

    Aproveitei a movimentação e atitude despojada dos monges nesses últimos dias da minha estadia para fotografar toda a rotina do monastério. Eles liberaram as câmeras para fazermos registros de maneira discreta, uma vez que a ocasião era muito especial.

    Os Oito Preceitos

    As regras de conduta a serem seguidas no monastério são simplesmente os oito preceitos budistas. Devem ser respeitados em qualquer retiro de meditação vipassana, com adição ou não da restrição da fala e leitura.

    1. Abster-se de matar seres vivos;
    2. Abster-se de tomar o que não é dado livremente;
    3. Abster-se do comportamento não casto;
    4. Abster-se de mentir e enganar;
    5. Abster-se de álcool e tóxicos que causem negligência;
    6. Abster-se de comer nos horários proibidos (isto é, após o meio dia);
    7. Abster-se de dançar, cantar, ouvir música, ver espetáculos de entretenimento, de usar ornamentos, usar perfumes e embelezar o corpo com cosméticos;
    8. Abster-se de deitar em leitos elevados ou luxuosos.

    Portanto as refeições são servidas até meio dia e são totalmente veganas. Todos devem vestir apenas vestes brancas, o que é garantido já que eles possuem uma enorme quantidade de roupas brancas para emprestar aos visitantes. Usou, lavou, devolveu. Assim ninguém precisa investir em roupas novas para meditar. Literalmente tudo é gratuito.

    É mantida uma cestinha com crachás à disposição para todos aqueles que desejam manter o silêncio durante a estadia. Neles está escrito “Silent, but happy” (em silêncio, mas feliz), o suficiente para todos ao redor respeitarem seu espaço e não lhe dirigirem a palavra.

    Rotina do monastério

    É impressionante o quanto de meditação se pratica em um único dia no Wat Pa Tam Wua. O melhor é que ainda sobram momentos preciosos para leitura e retirada de dúvidas, e isso só é possível pela programação super estrita que deve obrigatoriamente ser seguida por todos os visitantes.

    HorárioAtividade
    05h00Acordar – Praticar meditação e entoação de cânticos no seu Kuti
    06h30Oferenda de arroz aos monges no Dining Hall
    07h00Café da Manhã
    08h00Prática de meditação no Dhamma Hall
    10h30Oferenda de arroz aos monges no Dining Hall
    11h00Almoço
    13h00Prática de meditação no Dhamma Hall
    16h00Limpeza do monastério
    17h00Tempo livre
    18h00Entoação de cânticos e meditação no Chanting Hall
    20h00Prática de meditação individual nos Kutis
    22h00Hora de dormir

    Ritual matinal

    Esse é um dos momentos mais gostosos do dia. Acordamos bem cedinho antes do nascer do sol, meditamos individualmente nos dormitórios e depois seguimos para o Dining Hall para realizar a cerimônia de oferta de arroz aos monges.

    Na mesa do café da manhã temos um panelão enorme cheio de arroz. Cada um pega um pequeno prato com arroz, se dirige ao salão e senta numa fileira. Silêncio total.

    Depois de alguns minutos o silêncio é interrompido pela figura super carismática do abade Ajahn. Ele dá bom dia pessoalmente para cada visitante com um sorriso largo no rosto. Faz comentários sobre o clima, pergunta como foi a noite de todos e a meditação matinal de cada um – de forma sarcástica, sabendo que a maioria de nós ficou dormindo até a hora do café.

    Os monges finalmente chegam ao salão, cada um com sua tigela de mendicância. Eles vem passando por nós com as tigelas e vamos dando uma colherada de arroz para cada um. No fim todos os monges estão abastecidos de arroz para o café da manhã a partir de uma pequena contribuição de cada visitante. Um ato simbólico que fazia todo o sentido naquele lugar.

    Depois disso voltamos para as mesas de refeições e nos servimos.

    Alimentação

    Fiquei positivamente surpresa com a comida que nos serviram lá. Simples, saborosa, abundante. A base é o arroz, há uma variedade de ensopados de legumes, mock meats e dependendo do dia algumas opções de frutas também.

    A quantidade era farta e todos podiam repetir sem problemas – importante, já que nos alimentávamos só até o meio dia, cada refeição deveria ser muito farta!

    Eu confesso que levei alguns pacotes de oleaginosas na mochila temendo passar fome com o jejum ao longo do dia. Incrivelmente as duas refeições bem feitas foram suficientes para passar bem o resto do dia sem ficar angustiada pensando em comida.

    Além do café da manhã e do almoço eles oferecem chás, café e chocolate quente o dia inteiro! Existe um tanque de água quente para se servir a qualquer momento. Tomar um chá pela noite e pegar um livro emprestado pra ler era a pedida ideal.

    As práticas meditativas

    Conforme a programação acima, tínhamos grandes blocos de pelo menos 2 horas de meditação. Nossa prática era orientada pelo monge Phra Anek Thanissarapoti, um professor realmente fantástico. Cada sessão de meditação era uma verdadeira aula, não só sobre vipassana, mas também sobre os ensinamentos budistas em geral.

    Phra Anek falava em tailandês e inglês e introduzia um conceito diferente em cada aula. Algumas vezes fazia uso até de power point, o que era totalmente inesperado. O fato é que suas aulas realmente se aprofundavam no propósito da vipassana e os tipos de estados de consciência que devemos buscar alcançar. Era muito mais fácil de entender nossas dificuldades durante a prática e ajudou a nos livrar da carga de expectativas que nossa formação ocidental acaba colocando sobre o sucesso na meditação.

    Fazíamos basicamente três blocos de meditação numa mesma sessão: meditação caminhando, sentados e deitados. Essa última era particularmente difícil pela manhã – não raro alguém era pego roncando.

    Ao fim da meditação da tarde nos era concedido um tempo para fazer perguntas. De forma mais íntima, ficávamos próximos aos monges (embora só os homens pudessem ficar nas fileiras imediatamente ao lado deles) e cada um poderia falar sobre sua prática, dificuldades e dúvidas. Os monges respondiam cada um com muita tranquilidade e interesse.

    Phra Anek é tão empolgado divulgar os ensinamentos da filosofia budista que escreveu um livro-manual especialmente para os visitantes do monastério, chamado Walk to be the knower.

    Fiquei encantada com tanto empenho para passar o conhecimento à frente. Na biblioteca encontrei uma pilha do livro e perguntei ao Mr. Pong se poderia pegar emprestado pra ler. Ele sorriu e disse que o livro era meu. Pediu apenas que passasse para outra pessoa quando terminasse de ler ou ajudasse a traduzir esses ensinamentos na minha língua. Pretendo traduzir e postar grandes trechos desses ensinamentos por aqui.

    Entoando cânticos pela primeira vez

    Uma das atividades que eu mais gostava era a entoação de cânticos antes da última meditação do dia. A primeira vez foi estranho e confuso, mas aprendi a apreciar muito essa prática e carrego ela comigo até hoje com muito carinho.

    Os budistas theravada, diferente de outras escolas, não costumam trabalhar com mantras. A um estrangeiro desavisado pode parecer ser o caso, mas na verdade tratam-se de cânticos. São longos textos dos ensinamentos budistas cantados em páli.

    Foi através desses cânticos que os milhares de suttas foram preservados ao longo dos séculos antes de serem propriamente registrados em linguagem escrita, compondo o que hoje é chamado de Cânone Pali. É por isso que muitas vezes quando lemos um sutta estranhamos o formato e a quantidade de repetições de frases: essa estrutura é consequência da oralidade.

    No Wat Pa Tam Wua a prática de entoação de cânticos é adaptada para o público leigo tailandês e estrangeiro. Os cânticos são simplificados e cantados em três línguas ao mesmo tempo: páli, thai e inglês. É muito engraçado no início, ninguém faz ideia do que está fazendo. Mas em alguns minutos de observação e leitura pegamos o ritmo e conseguimos praticar com o grupo, mesmo sem jamais ter falado uma palavra de páli ou thai.

    Eu tinha ouvido monges entoando cânticos em muitos templos mas jamais imaginei que me veria fazendo o mesmo, nem fazia ideia do que aqueles sons transmitiam. Fiquei muito impactada com o poder dessa prática e estudei mais sobre eles após minha volta do monastério, quando pude conhecer o conceito de paritta.

    Me dediquei a traduzir para o português o Paritta Metta Sutta da melhor maneira que pude. Hoje esse paritta me acompanha diariamente e procuro compartilhá-lo sempre que possível, pois ele provoca uma reflexão amorosa sobre todos os seres, além de carregar palavras entoadas exaustivamente há milênios, assim como a oração do Pai Nosso e Ave Maria aqui no Ocidente.

    Como Buda nos ensinou, a impermanência é uma das três marcas da existência. Minha experiência vivendo num monastério chegou ao fim.

    Vivi momentos que guardo em um espaço muito especial no meu coração e espero um dia poder voltar a visitar essa comunidade única no mundo, como eles gostam de chamar: home away from home (lar longe de casa).

    Recomendo fortemente a todos que planejam uma viagem à Tailândia que reservem alguns dias para esse aprendizado. Em relação aos custos, quem se hospeda em Chiang Mai gasta em torno de 70 reais para ir e voltar do monastério e ainda pode aproveitar para conhecer Pai.

    Sua estadia é 100% gratuita e a doação é espontânea e anônima. Existem caixas para doações espalhadas e envelopes para você depositar a sua doação de forma discreta, sem cobranças, no momento que preferir.

    A contribuição é fundamental para manter o retiro funcionando, mas cada um tem a oportunidade de doar de acordo com seu bolso. Doando pelo menos 100 baht (13 reais) por dia de estadia você já cobre razoavelmente os gastos da sua presença sem ser mão de vaca – o custo de vida lá é bem baixo. Mas é claro que pode doar mais! Lembre-se de quanto você gasta em um dia de turismo.

    Deixando o Wat Pa Tam Wua

    Para voltar do monastério basta avisar ao pessoal. Todas as manhãs um songthaew amarelo passa por lá para buscar visitantes.

    A quantidade de pessoas e carga de produtos que cabe num desses é impressionante! É uma viagem um pouco longa e desconfortável de volta à Pai pois o songthaew é parador e vai deixando/buscando mercadorias no caminho.

    No fim das contas somos deixados na rua principal de Pai, onde podemos pegar uma van de volta para Chiang Mai e definitivamente voltar para a vida na cidade.


  • Conheci a história das bhikkhunis por acaso em um dia muito especial: o primeiro aniversário que passei 100% sozinha, vivendo num fuso horário 10 horas adiantado da minha família e amigos. Foi uma experiência muito estranha. Mesmo acostumada a viajar só, nesse dia me senti muito solitária. Era minha última tarde em Bangkok.

    Não sabia muito bem o que fazer e decidi pegar um caminho diferente para chegar até o ponto de ônibus próximo ao hostel. Estava um calor abafado, as nuvens anunciavam um temporal e eu passava pelo complexo de templos budistas dos arredores com uma certa pressa pra pegar logo o ônibus. Passei reto por eles, com uma pulga atrás da orelha… e aí dei meia volta. Precisava dar uma olhada antes de ir embora.

    A surpresa

    Parei bem em frente ao Wat Thepthidaram Worawihan. Um templo bem pequeno e modesto comparado aos deslumbrantes que visitei durante minha estadia na cidade. Lá dentro encontrei um salão singelo, de paredes vermelhas e empoeiradas, com tinta descascando. Bem detonado e esquecido, como a história das figuras ali representadas.

    Para a minha surpresa, dei de cara com nada menos do que cinquenta e duas estátuas de mulheres. Pela primeira vez vejo estátuas de figuras femininas em um templo tailandês e fico absolutamente eufórica. Não só temos figuras femininas, mas em quantidade e variedade. São quarenta e nove sentadas e três em pé, retratadas em diferentes posturas. Meditando, entoando cânticos, conversando, fumando, costurando e lendo.

    O ponto mais curioso desse cenário é o fato dessas mulheres estarem num contexto monástico. Até aquele momento eu não conhecia a história de religiosidade e resistência das bhikkhunis. Atualmente a vida de monge (bhikkhu) é uma realidade apenas para os homens na Tailândia.

    Foi muito emocionante andar por essas mulheres e tentar imaginar as vidas que elas levaram. Senti que me acolhiam e abençoavam o dia do meu aniversário, que não estava lá muito animado. Fica o registro do meu rostinho emocionado aí em cima, feliz da vida pelo senso de direção bem orientado.

    O Templo da Filha Celestial

    Bem na porta de entrada há um cartaz explicando a origem dessas estátuas num inglês de google translator muito difícil de decifrar. Segundo o cartaz, Wat Thepthidaram Worawihan significa Templo da Filha Celestial em thai. Foi construído em 1836 pelo Rei Rama III e dedicado à sua filha mais velha, a princesa Kroma Muen Apsomsudathep. As estátuas contidas nele são consideradas extremamente raras e não consegui informação sobre nenhum outro espaço que homenageie a vida das bhikkhunis na Tailândia.

    Mahāpajāpatī Gautamī e marcha das mulheres

    As 52 monjas estão dispostas ao redor de uma figura central: Mahapajapati Gotami. Segundo o cânone budista, ela foi a liderança das primeiras bhikkhunis a serem ordenadas por Buda.

    Mahapajapati era irmã da Princesa Maya, a mãe do menino Sidarta (o Buda). Maya faleceu logo após o parto e Mahapajapati se encarregou da criação do sobrinho junto com seus outros dois filhos. A trajetória de Sidarta é cheia de detalhes interessantes, vale um estudo à parte. O que interessa saber aqui é que, aos 70 anos, após a morte de seu marido, Mahapajapati toma a decisão de adotar o caminho de ascetismo pregado por Buda.

    Ela pede ao sobrinho para formar uma ordem feminina para que as mulheres também pudessem devotar plena dedicação ao desenvolvimento espiritual. O Buda recusou. Ela insistiu por mais duas vezes e o homem que ela criou como filho se manteve irredutível, sem dar nenhum motivo para sua recusa. Deixou a tia pra trás e seguiu com a peregrinação. Mas ela não desistiu.

    Mahapajapati decidiu raspar os cabelos , vestir-se de ocre como um monge e organizar uma ação de impacto. Assim como ela, muitas mulheres queriam aderir ao budismo e abandonar a vida doméstica e a acompanharam numa jornada de centenas de quilômetros de caminhada até o monastério Jetavana, onde o Buda ensinava. Os relatos afirmam que 500 mulheres se juntaram à causa e multidões de curiosos as acompanharam, no que pode ser considerada a primeira marcha de mulheres em busca de igualdade de direitos de que se tem registro.

    O Buda percebeu sua determinação e foi convencido de que, tendo vivido como mendicantes por semanas, estavam prontas para empreender uma vida monástica. Após a hábil persuasão de um de seus discípulos mais próximos, seu primo Ananda, o Buda concedeu permissão às mulheres para serem ordenadas como as primeiras bhikkhunīs.

    Uma vida menos desigual

    Mahapajapati Gotami e quinhentas outras mulheres estabeleceram um novo precedente para a igualdade social. Essas mulheres não apenas buscaram a libertação espiritual, mas também criaram para si um caminho de vida alternativo radicalmente diferente dos papéis sociais atribuídos a elas. Numa sociedade patriarcal como a indiana, há 2500 anos atrás, era impensável a presença feminina no contexto religioso e muito menos envolvendo total abdicação da vida matrimonial e familiar.

    Tendo em vista esse cenário histórico fica mais fácil de entender as condições impostas às bhikkunis. Hierarquicamente elas precisavam respeitar as ordens masculinas e preceitos adicionais como não poderem viver a mais de 6 horas de viagem de monges. Isso faz algum sentido pois na época (e infelizmente ainda hoje) uma mulher que tivesse abandonado a vida familiar e doméstica seria de qualquer outra forma assediada e perseguida. Pela associação com os monges elas poderiam passar por essa mudança de vida e papel social com maior segurança, então certas práticas que as mantinham submissas aos monges eram justificadas.

    As Bhikkhunis na atualidade

    A tradição seguiu principalmente em outros ramos do budismo como o Mahayana, que se espalhou pela China e outros países do Extremo Oriente. Existe uma grande quantidade de monjas plenamente respeitadas nessas regiões. Já no budismo Theravada, dominante nos países do Sudeste Asiático, as ordens de bhikkhunis são enorme motivo de polêmica e atualmente só o Sri Lanka possui uma comunidade propriamente aceita.

    O motivo é a estrutura rigidamente fundamentalista, baseada no conjunto de regras estabelecido logo após a morte de Buda – uma maneira de justificar a recusa dos homens em abrir seus monastérios para a presença de mulheres. O argumento de não aceitar novos ordenamentos de mulheres é que a ordem teria sido extinta e portanto não haveria como aceitar novas monjas, já que o ordenamento requer a presença de uma bhikkhuni. Por conta de um período de guerra, seca e fome, as ordens de homens e mulheres foram extintas no Sri Lanka no século 11. Para restaurar a comunidade, foi preciso a atuação de monges de outros reinos, mas não haviam ordens femininas fora do Sri Lanka e portanto foram consideradas extintas.

    A Sangha Tailandesa proíbe estritamente que mulheres sejam ordenadas por esse motivo. As monjas não são aceitas e podem inclusive ser punidas (embora não seja a prática) já que é crime se passar por um monge em território tailandês. Além de poderem ter a entrada recusada em espaços sagrados, são impedidas de usufruir de inúmeros direitos que os monges possuem, como transporte público gratuito, assentos reservados em locais públicos, reconhecimento oficial do governo e especialmente o status elevado que a classe possui na sociedade.

    Assim, as mulheres tailandesas que buscam trilhar esse caminho possuem uma série de restrições. Algumas viajam para o Sri Lanka, onde se restabeleceu recentemente a ordem de Bhikkhunis. Dhammananda, a primeira bhikkuni tailandesa ordenada em 2003, hoje lidera grupos de bhikkhunis no país. Apesar de possuirem apoio das populações locais, não são reconhecidas pelos monges.

    A realidade das Mae Ji

    A outra opção que tem sido adotada há muito mais tempo pelas tailandesas é a vivência como Mae Ji, num status entre um seguidor leigo e monge. Elas geralmente vivem sobre as premissas de um monastério e servem aos monges, cozinhando, limpando e atuando nas atividades práticas em geral. Seguem a rigor os mesmos preceitos que os monges, vivem com os cabelos raspados e vestes brancas para diferenciá-las do clero. Lembrando que Mae em thai significa mãe…

    Vi algumas delas em templos. É triste observar os monges sentados em um tablado elevado durante as cerimônias enquanto uma Mae Ji realiza as mesmas atividades religiosas junto ao povo leigo, afastada dos monges. Os pequenos noviços com menos de dez anos de idade possuem um papel de destaque enquanto uma Mae Ji que pratica os oito preceitos há décadas é totalmente marginalizada.

    A luta que segue

    Nesse dia das mulheres, 8 de março de 2020, decidi compartilhar essas descobertas na intenção de enaltecer grandes feitos de nossas predecessoras. Infelizmente vemos que ainda hoje muitas mulheres precisam lutar para fazer valer a conquista de Mahapajapati Gotami e suas quinhentas seguidoras, 2500 anos depois.

    Não é de se admirar que a entrada das mulheres na vida monástica seja tão combatida. A figura feminina que se posiciona alheia à função de mãe e provedora de lares é uma ameaça à estrutura do patriarcado e claramente a veia patriarcal fala mais alto do que qualquer filosofia e estilo de vida que um homem possa adotar.

    Tenhamos como inspiração essas bhikkhunis que marcharam por uma vida livre e adequada aos seus ideais e objetivos de vida. Que assim como elas possamos transformar os espaços em que vivemos.

    Localização do Wat Thepthidaram Worawihan


  • Todos os anos em Chiang Mai, no norte da Tailândia, é comemorado um festival de beleza icônica. São três dias de eventos pela cidade que incluem longas celebrações com cânticos budistas nos templos, apresentações de danças tradicionais da cultura Lanna, desfile de carros alegóricos e sobretudo um verdadeiro espetáculo de milhares de lanternas lançadas nas águas e nos céus ao mesmo tempo. Eu tive a oportunidade de participar dessa festa e procurei entender como os tailandeses celebram o Yee Peng pelas ruas da cidade, longe dos eventos fechados para turistas.

    Quando acontece o Yee Peng

    Yee Peng vem da palavra “yee” referindo-se ao “segundo mês lunar” e “peng” significa “noite de lua cheia”. Assim, “yee peng” refere-se à noite de lua cheia do segundo mês lunar do calendário Lanna, antigo reino do norte da Tailândia cuja capital era Chiang Mai. 

    Essa noite de lua cheia marca exatamente o Loi Krathong, evento celebrado por todo o país e que integra as festividades do Yee Peng. Clique aqui para saber mais sobre o Loi Krathong (é importante para entender a dimensão desse evento).

    A data também é comemorada com festividades em outros países do sudeste asiático como no norte da Malásia, no festival Boun That Luang no Laos, o Tazaungdaing no Myanmar e o Bon Om Touk no Camboja. Trata-se de um momento chave para todos esses povos, pois marca o fim da longa temporada de chuvas da região, a época de colheita dos campos de arroz e início da estação fria.

    Festival de luzes

    Dias antes do Yee Peng a cidade já está toda enfeitada por lanternas coloridas variadas. Essas lanternas típicas da região são feitas de papel e bambu e ficam penduradas nos templos e estabelecimentos comerciais.

    A luz das lanternas é associada à sabedoria que clareia o caminho na escuridão. Acredita-se que a oferta de lanternas é auspiciosa e traz mérito, e o fazem em homenagem à iluminação de Buda.

    No dia da abertura oficial do festival, velas são acesas nas muralhas da cidade antiga, nos templos e até nas calçadas e portas de estabelecimentos. É lindo andar pelas ruas e ver todas as casas cercadas por velas – ouvi falar que se acende uma pra cada morador do lugar.

    Cerimônias e ritos

    A abertura do festival acontece na praça do Three Kings Monument, que fica decorada com lanternas e espaço para acender velas todos os dias. Há uma cerimônia solene com figuras públicas importantes, incluindo o prefeito da cidade e monges eminentes.

    Nessa abertura assistimos um longo sermão budista com cânticos em pali. Mesmo sem entender nada, fiquei emocionada com a sonoridade das palavras, a lua no céu, a praça repleta de velas e lanternas acesas. Impressionante o silêncio que toma conta da praça, mesmo estando abarrotada de locais e turistas.

    Logo depois é acesa a vela oficial do Yee Peng que fica exposta num lugar privilegiado, e então se inicia a apresentação de uma dança tradicional da cultura Lanna. Trata-se do Fon Tian, uma dança realizada com velas em movimentos lentos e graciosos. São centenas de senhoras e crianças se apresentando e fiquei contente de ver alguns meninos vestidos com o mesmo traje dançando com graça.

    Durante essa noite e as seguintes todos os grandes templos da cidade ficam lotados de monges e fiéis realizando a leitura do Vessantara Jataka, uma escritura do cânone Pali muito importante para o budismo theravada. Esse texto conta a história de uma das vidas passadas do buda Siddhārtha Gautama que enaltece suas virtudes de profunda generosidade e desapego dos bens materiais.

    Os templos são decorados com todos os tipos de lanternas, bandeiras coloridas, uma abundância muito grande de flores e com o famoso Sai Sin, barbante consagrado que conecta todos os presentes numa reunião ao Buda no altar.

    A noite da lua cheia

    Com o fim da longa temporada chuvosa, o céu noturno está limpo e o clima fresco. Na noite do próprio Loi Krathong, a lua cheia navega no horizonte em um céu cheio de luz. É chegada a hora acender as khom loi, lanternas flutuantes, que erguem-se no céu como uma galáxia de estrelas alaranjadas.

    As lanternas de papel que flutuam com o ar quente até os céus supostamente levam embora as energias ruins e karmas negativos. Também são realizados pedidos no ato. Para a magia funcionar, é preciso que o balão se impulsione rapidamente sem bater em nenhum obstáculo.

    Sob esse show de luzes e fogos de artifício, os krathongs floridos e iluminados seguem flutuando pelo rio Mae Ping. Um cenário que realmente difícil de captar pelas fotos, é preciso estar lá pra ver!

    Onde acontece

    Em Chiang Mai a festa se concentra nos arredores da Ponte Nawarat. Lá é possível descer para a beira do rio, ofertar seu krathong e inflar seu khom loi em cima da ponte. Fica bem lotado mas é o lugar onde o espetáculo fica mais bonito. Outros lugares mais tranquilos para fazer seu ritual são os próprios templos com os monges, que te ajudam e acendem a sua lanterna usando uma vela amarela. Você pode fazer isso no Wat Pan Tao, Wat Chedi Luang, Wat Mahawan e Wat Lok Moli, entre outros mais afastados da cidade antiga.

    É importante notar que toda essa festa é popular e de rua, totalmente gratuita. Hoje existe um grande mercado de eventos para turistas nos arredores da cidade, que coordenam o lançamento das lanternas para fazer aquela cena famosa de milhares de lanternas subindo ao mesmo tempo e proporcionar a foto perfeita pra postar no instagram. São eventos caros, que criam um cenário bonito, mas me pergunto se você encontra algum tailandês por lá. O mais famoso acontece na universidade Mae Jo e custa entre 200 e 400 dólares por pessoa.

    Nas ruas são vendidos os krathongs e as lanternas de vários tamanhos por valores que variam entre 20 baht e 100 baht (aproximadamente entre 3 e 13 reais).

    Sobre a segurança

    Você pode estar se perguntando sobre o risco envolvido no lançamento de tantas lanternas no ar, visto que no Brasil vemos muitos incêndios causados por balões no período das festas juninas.

    Pelo que vi nas ruas esses balões não têm muita resistência e carregam pouco combustível, então acabam flutuando por alguns minutos e apagando antes de chegar ao solo. Vi muitos desses caindo e batendo em árvores, sempre apagados.

    A orientação é que são proibidos os lançamentos de lanternas, com exceção desses dias de festival. A maior quantidade cai dentro da própria cidade e não chega nas áreas rurais. De todo modo, as brigadas de incêndio ficam em prontidão e há um planejamento aéreo para que as luzes não atrapalhem nenhuma rota de vôo.

    Desfile do Loi Krathong

    No último dia de festival acontece um longo desfile com carros alegóricos e música. Fiquei surpresa com o investimento realizado nesses carros e nas fantasias, super elaboradas. É uma mistura muito curiosa de carros de grandes empresas apresentando sua marca, instituições governamentais, escolas e universidades.

    Achei muito bacana os desfiles de universidades com os professores homenageados desfilando. Curioso o lugar de destaque que eles recebem pelo menos nessa ocasião, coisa que deveria ser muito mais comum no mundo todo, tamanha a importância dessa profissão.

    O desfile seguiu por umas duras horas pela Chang Moi Road. Chegando ao fim da rua, próximo da Nawarat Bridge, existe um grande espaço de barracas com comidas variadas e palcos de show “sem álcool”, pois se trata de uma festa religiosa. Tinham umas bandas tailandesas bem animadas e morri de rir com alguns brasileiros quando percebemos que aquela música era muito parecida com um forró.

    Vale a pena?

    Definitivamente sim! Participar do Yee Peng foi uma das experiências mais legais da minha viagem. Se você planeja um dia visitar a Tailândia, recomendo que tente encaixar as datas da sua viagem pra contemplar esse festival e conhecer Chiang Mai em todo seu esplendor.

    Aviso que é preciso se programar com antecedência pois as passagens e diárias de hospedagem ficam bem mais caras. Fique hospedado dentro da cidade antiga, é lá que ocorrem todos os eventos.

    Pra quem quiser ter uma noção de todos os eventos organizados pela prefeitura, eis a programação oficial em inglês desse ano de 2019.


  • Durante minha temporada morando em Chiang Mai tive a oportunidade de vivenciar um dos principais festivais tailandeses: o Loi Krathong. Foi uma das experiências mais especiais dessa jornada! A partir dela pude conhecer muitas particularidades da religiosidade local e compartilhar a enorme alegria que preenche as ruas da cidade nessa época do ano, intensificada pelo festival do Yee Peng – tradicional do norte da Tailândia – que acontece na mesma data.Descubra mais sobre o Yee Peng nesse post.

    Quando acontece o Loi Krathong

    Celebrado em todo o país, Loi Krathong é um dos festivais mais importantes da cultura tailandesa e ocorre todos os anos na lua cheia do décimo segundo mês do calendário lunar tailandês, que geralmente cai no mês de novembro.

    A data também é comemorada com festividades em outros países do sudeste asiático como no norte da Malásia, no festival Boun That Luang no Laos, o Tazaungdaing no Myanmar e o Bon Om Touk no Camboja. Trata-se de um momento chave para todos esses povos, pois marca o fim da longa temporada de chuvas da região, a época de colheita dos campos de arroz e início da estação fria.

    Os Krathongs flutuantes

    Loi (ลอย) significa flutuar, enquanto krathong (กระทง) tem vários significados, um dos quais é “um pequeno recipiente feito de folhas que podem flutuar na água durante o festival Loi Krathong”.

    O krathong é um barquinho tradicionalmente feito de recursos naturais, geralmente uma fatia de tronco de bananeira, decorado com tranças elaboradas de folhas de bananeira, adornado com flores, incensos e uma vela. Na noite da lua cheia, milhares de krathongs são acesos e depositados em rios, canais e lagos pelo país, que nessa época do ano estão em sua fase mais cheia.

    Acredita-se que o krathong leva as más energias embora e sinaliza um novo começo que trará boa sorte e felicidade. A associação com a prosperidade é notável, visto que muitos colocam moedas em seus krathongs.

    Phra Mae Khongkha

    Hoje a festividade está profundamente integrada ao budismo. Os monges e templos têm papel fundamental e muitas pessoas entoam seus cânticos em pali antes de lançar os krathongs, sendo o fogo das velas acesas uma forma de prestar homenagem ao Buda. Mas a essência desse festival está fortemente ligada aos espíritos da natureza, especialmente, à uma deidade chamada Phra Mae Khongkha.

    Phra Mae Khongkha nada mais é do que a qualidade tailandesa da deusa hindu Ganga – a personificação do rio Ganges. É representada vestindo uma coroa branca, sentada em um crocodilo e segurando uma lotus na mão direita.

    Existem indícios de que a tradição das oferendas nos rios na Tailândia é de origem bramânica. Não consegui encontrar fontes confiáveis sobre o assunto, mas o que sabemos com certeza é que o culto à deusa dos rios segue forte durante o Loi Krathong.

    Existem orações específicas para Mae Khongkha com pedidos de perdão por toda a poluição provocada nos rios durante o ano, ofertando o krathong como forma de agradecimento, ao mesmo tempo que se pede por suas graças.

    É o culto à uma deusa mãe mesclado com a religiosidade budista, que fica mais óbvio ao descobrirmos que a palavra mae (แม่) em tailandês significa mãe. Todo esse ritual me lembrou muito as nossas comemorações de ano novo no Rio de Janeiro, com oferendas para Iemanjá na praia. Marca a ruptura com um período que queremos deixar pra trás e um futuro pela frente com mais tranquilidade e prosperidade.

    Comemorações às margens do Mae Ping

    Acredito fortemente que Chiang Mai seja o melhor lugar para se estar durante essa data! Tive a graça de participar dessa festividade às margens da mãe Ping, o rio que corta a cidade.

    O ar de felicidade e deslumbramento pela cidade é muito marcante, é impossível não se contagiar. Foi muito emocionante acender meu krathong, num ato emocionalmente tão familiar, mas imersa numa realidade que difere muito da nossa no Brasil.

    Em Chiang Mai esse ritual se mistura ao festival Yee Peng, o que deixa tudo mais impressionante. Leia sobre o Yee Peng nesse post.

    Pra entrar no clima

    Deixo com vocês a música que é mais reproduzida durante esse período de festival. Tocava em toda lojinha e em altos falantes pelas ruas, incrivelmente difícil de tirar da cabeça!