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  • Kotodama, literalmente “espírito da palavra”, é um conceito central na mitologia japonesa e no xintoísmo, bem como nas artes marciais tradicionais japonesas. Curiosamente, um dos termos antigos usados para descrever o Japão é kototama no sakiwau kuni : “a terra onde o kototama traz felicidade”.

    A noção de kotodama pressupõe que sons podem afetar objetos e que o uso ritual das palavras pode influenciar nosso ambiente e nosso corpo, mente e alma.

    言靈

    No kanji, o kotodama é escrito como 言靈. O primeiro kanji, 言 gen, quer dizer fala, palavra. É representado por um retângulo – a boca – com riscos acima – representação das ondas sonoras, a verbalização da palavra.  O segundo kanji, 靈 rei, especialmente familiar para os estudantes do Reiki, quer dizer espírito, alma, fantasma. Literalmente, a expressão pode ser traduzida como espírito da palavra e se refere à força viva que anima as palavras.

    O poder da palavra

    No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus.

    João 1:1-4

    Em muitas tradições espirituais ao redor do mundo, as histórias da Criação são descritas como tendo o início com uma palavra ou música. Essa reverência ao primordial poder criativo do som é a mesma crença que capacita os estudantes de kotodama a aproveitar os mistérios da linguagem para trabalhos esotéricos.

    É possível traçar um paralelo do kotodama não verbalizado, kototamagaku ( 言霊学 , “estudo de kotodama “) popularizado por Onisaburo Deguchi, com o estudo da gematria na Kabbalah, onde a composição das palavras é de profundo significado e à cada letra do alfabeto hebraico é atribuído um valor numérico. No caso do kototamagaku a fonologia da língua japonesa é usada como base mística para composição palavras e significados.

    Contudo, a observação do kotodama não está reservada apenas aos estudiosos, mas permeia a vivência de toda a população. O xintoísmo é a base espiritual da cultura japonesa e consiste em uma visão de mundo profundamente animista, que atribui um espírito à tudo, incluindo objetos inanimados por exemplo, então é natural que a principal forma de expressão humana seja dotada de um espírito de grande importância na vida diária.

    Não há dúvidas de que o poder da palavra seja um conceito universal. Podemos observar semelhanças entre práticas místicas relacionadas à linguagem em outras culturas, como a repetição de mantras, orações, cânticos, entre outros, mas para compreender o kotodama é preciso admitir as particularidades da fala e da escrita japonesas que lhe conferem uma posição de destaque em sua cultura.

    A língua japonesa

    A partir da linguagem de um povo é possível extrair muitos de seus hábitos e um pouco do que compõe a psique dessa nação.

    Pelo fato da língua japonesa não ser muito rica foneticamente, muitas palavras são pronunciadas da mesma forma e podem causar mal-entendidos caso o interlocutor não se mantenha atento. É contra a etiqueta japonesa ser muito direto. Sendo assim, tanto por educação como por conveniência, um discurso pode ser facilmente proferido de forma genérica, de modo a deixar uma mensagem subentendida.

    Essencialmente discretos, os japoneses mantém certa desconfiança nas palavras. Por serem muito generalizadas e dependentes do contexto, com frequência eles acham por bem não se embasar por completo no que ouvem ou mesmo no que dizem, pois é difícil ter certeza de que a mensagem foi passada adequadamente. Seria extremamente indelicado questionar o interlocutor sobre isso e, na visão japonesa, a responsabilidade pelas palavras que se profere é única e inteiramente do indivíduo, caso não tenha sido bem sucedido em transmitir o que intencionava, a vergonha e a retratação devem ser absorvidas por ele.

    Essa filosofia serve como ensinamento para a educação e consciência do poder da linguagem. Um senso de responsabilidade deve ser adquirido sobre o que se fala, pois as palavras proferidas são o que os demais podem captar da sua personalidade e essência, bem como tudo que as cerca, ou seja, sua postura, entonação, vocábulo, gestos. O conjunto de todos esses fatores compõe a figura que será criada em torno de sua imagem e todo emissor deve cuidar para se fazer entender claramente, do contrário, idéias equivocadas sobre suas afirmações podem ser geradas e, a partir disso, todo um ciclo de influências se formará em torno desse entendimento errôneo que inclusive poderá voltar a prejudicar o próprio indivíduo.

    Cultivando a consciência da fala

    O cultivo do kotodama é principalmente enfatizado no meio das práticas de artes marciais japonesas, em especial no Aikido, que possui uma profunda base no kotodama. Mas para os não praticantes de artes marciais, um dos exemplos mais famosos e mundialmente conhecidos de um kotodama que carrega a essência do cultivo das virtudes humanas são os Gokai, os cinco princípios do Reiki.

    Os Gokai foram desenvolvidos pelo fundador Mikao Usui e são ensinados pelas escolas de Reiki como uma prática diária. Trata-se do kotodama mais difundido do mundo ocidental, que foi traduzido para muitas línguas, embora seja recomendada a repetição em japonês.

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    Kyō dake wa
    Só por hoje
    Okoru-na
    Sou calma(o)
    Shinpai suna
    Confio
    Kansha shite
    Sou grata(o)
    Gyo-wo hage me
    Trabalho honestamente
    Hito ni shinsetsu ni
    Sou gentil com todos os seres

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  • Durante minha temporada morando em Chiang Mai tive a oportunidade de vivenciar um dos principais festivais tailandeses: o Loi Krathong. Foi uma das experiências mais especiais dessa jornada! A partir dela pude conhecer muitas particularidades da religiosidade local e compartilhar a enorme alegria que preenche as ruas da cidade nessa época do ano, intensificada pelo festival do Yee Peng – tradicional do norte da Tailândia – que acontece na mesma data.Descubra mais sobre o Yee Peng nesse post.

    Quando acontece o Loi Krathong

    Celebrado em todo o país, Loi Krathong é um dos festivais mais importantes da cultura tailandesa e ocorre todos os anos na lua cheia do décimo segundo mês do calendário lunar tailandês, que geralmente cai no mês de novembro.

    A data também é comemorada com festividades em outros países do sudeste asiático como no norte da Malásia, no festival Boun That Luang no Laos, o Tazaungdaing no Myanmar e o Bon Om Touk no Camboja. Trata-se de um momento chave para todos esses povos, pois marca o fim da longa temporada de chuvas da região, a época de colheita dos campos de arroz e início da estação fria.

    Os Krathongs flutuantes

    Loi (ลอย) significa flutuar, enquanto krathong (กระทง) tem vários significados, um dos quais é “um pequeno recipiente feito de folhas que podem flutuar na água durante o festival Loi Krathong”.

    O krathong é um barquinho tradicionalmente feito de recursos naturais, geralmente uma fatia de tronco de bananeira, decorado com tranças elaboradas de folhas de bananeira, adornado com flores, incensos e uma vela. Na noite da lua cheia, milhares de krathongs são acesos e depositados em rios, canais e lagos pelo país, que nessa época do ano estão em sua fase mais cheia.

    Acredita-se que o krathong leva as más energias embora e sinaliza um novo começo que trará boa sorte e felicidade. A associação com a prosperidade é notável, visto que muitos colocam moedas em seus krathongs.

    Phra Mae Khongkha

    Hoje a festividade está profundamente integrada ao budismo. Os monges e templos têm papel fundamental e muitas pessoas entoam seus cânticos em pali antes de lançar os krathongs, sendo o fogo das velas acesas uma forma de prestar homenagem ao Buda. Mas a essência desse festival está fortemente ligada aos espíritos da natureza, especialmente, à uma deidade chamada Phra Mae Khongkha.

    Phra Mae Khongkha nada mais é do que a qualidade tailandesa da deusa hindu Ganga – a personificação do rio Ganges. É representada vestindo uma coroa branca, sentada em um crocodilo e segurando uma lotus na mão direita.

    Existem indícios de que a tradição das oferendas nos rios na Tailândia é de origem bramânica. Não consegui encontrar fontes confiáveis sobre o assunto, mas o que sabemos com certeza é que o culto à deusa dos rios segue forte durante o Loi Krathong.

    Existem orações específicas para Mae Khongkha com pedidos de perdão por toda a poluição provocada nos rios durante o ano, ofertando o krathong como forma de agradecimento, ao mesmo tempo que se pede por suas graças.

    É o culto à uma deusa mãe mesclado com a religiosidade budista, que fica mais óbvio ao descobrirmos que a palavra mae (แม่) em tailandês significa mãe. Todo esse ritual me lembrou muito as nossas comemorações de ano novo no Rio de Janeiro, com oferendas para Iemanjá na praia. Marca a ruptura com um período que queremos deixar pra trás e um futuro pela frente com mais tranquilidade e prosperidade.

    Comemorações às margens do Mae Ping

    Acredito fortemente que Chiang Mai seja o melhor lugar para se estar durante essa data! Tive a graça de participar dessa festividade às margens da mãe Ping, o rio que corta a cidade.

    O ar de felicidade e deslumbramento pela cidade é muito marcante, é impossível não se contagiar. Foi muito emocionante acender meu krathong, num ato emocionalmente tão familiar, mas imersa numa realidade que difere muito da nossa no Brasil.

    Em Chiang Mai esse ritual se mistura ao festival Yee Peng, o que deixa tudo mais impressionante. Leia sobre o Yee Peng nesse post.

    Pra entrar no clima

    Deixo com vocês a música que é mais reproduzida durante esse período de festival. Tocava em toda lojinha e em altos falantes pelas ruas, incrivelmente difícil de tirar da cabeça!