A queda do céu

Não tenho certeza se é dia ou noite; inexplicavelmente está tudo claro, mas a escuridão também domina. A lua cheia chama minha atenção e sorrio por alguns instantes admirando o seu brilho. Mas meu estado de espírito parece deslocado. Sinto que o humor coletivo é outro. Alguma coisa parece diferente, há uma tensão no ar. Logo ouço murmúrios de assombro ao meu redor, embora não consiga identificar quem exatamente está comigo – a única certeza é de que são poucas as pessoas que restaram.

De repente, compreendo o motivo da comoção. A lua se move a uma velocidade que eu nunca tinha visto antes e parece estar caindo em nossa direção. Em poucos segundos o movimento acelera e começo a sentir os tremores. O solo perde a firmeza e tudo começa a rachar. Continuo olhando para o céu e me dou conta de que não é a lua que se move, mas o nosso planeta. Estamos perdendo o eixo? Ouço gritos de desespero, apesar de não haver ninguém perto de mim. Aos poucos, a gravidade vai diminuindo, até que me percebo flutuando levemente acima do solo. Agarro-me à árvore mais próxima, afinal, suas raízes estão fincadas na terra. Penso que talvez este seja o fim da vida nesse plano. Mas por quê agora?

Não demora muito para que as raízes da árvore à qual estou abraçada também se desprendam e flutuem. É o fim do meu contato com o corpo terrestre. Nesses últimos segundos, derramo algumas lágrimas e me despeço, com pesar, do mundo que tanto amei. Tudo o que estava inicialmente suspenso é arremessado para fora da atmosfera em uma velocidade colossal, de forma tão violenta que interrompe, imediatamente, a vida de todos os seres.

Acordo um pouco perdida, mas numa placidez surpreendente, considerando a intensidade dessa vivência onírica. Pelo visto, o mundo está acabando mesmo. Alguma força foi capaz de bagunçar tanto o movimento de rotação no próprio eixo terrestre quanto o movimento de translação ao redor do Sol. Mas hoje é dia de votar! Sem tempo pra analisar o simbolismo gritante do que tinha acabado de sonhar. Meu coração está tão repleto de esperança que a mente faz questão de ignorar o mau presságio e parto pra cabine de votação, com um entusiasmo que não sentia há muitos anos. Foram algumas horas de alegria até o chão ser arrancado dos meus pés, novamente, durante a apuração dos votos.

Agora, um pouco recuperada do tombo, consegui sentar para descrever brevemente essa experiência e compartilhá-la com vocês. Não sei que futuro nos aguarda, mas tiro desse sonho a certeza de que estarei aqui até o fim, fazendo o que for possível para manter a dignidade da vida no nosso planeta – dos brasileiros, de todos os humanos e, sobretudo, dos outros terráqueos que deram o azar de viver o Antropoceno. Mesmo diante da sensação de que tudo terminou, ainda estamos aqui. E enquanto estivermos, há algo a fazer. Não é hora de desanimar; aliás, nunca é hora de desanimar. O derrotismo mata tudo o que toca e não podemos nos dar ao luxo de tolerá-lo.

Acho que vocês deveriam sonhar a terra,
pois ela tem coração e respira.

Davi Kopenawa, entrevista a F. Watson (Survival International), Boa Vista, jul. 1992

Refletindo sobre meu sonho, lembrei-me imediatamente de um livro que está na minha estante aguardando a leitura há anos: A Queda do Céu, do xamã yanomami Davi Kopenawa. Comprei pra ler depois da ótima leitura de O Desejo dos Outros – Uma etnografia dos sonhos yanomami, da pesquisadora Hanna Limulja. Recomendo muito que se debrucem sobre esse olhar tão rico sobre o universo dos sonhos.

Puxei o calhamaço da estante pra folhear, já convicta de que se trata de mais um livro que fura a minha lista de leitura por motivos de *recomendação onírica*. Encontrei alguns trechos com forte associação simbólica ao sonho que acabei de descrever. Reproduzo abaixo e deixo as reflexões com vocês, pois já estourei, e muito, meu tempo de escrita por aqui hoje.

A floresta está viva. Só vai morrer se os brancos insistirem em destruí-la. Se conseguirem, os rios vão desaparecer debaixo da terra, o chão vai se desfazer, as árvores vão murchar e as pedras vão rachar no calor. A terra ressecada ficará vazia e silenciosa. Os espíritos xapiri, que descem das montanhas para brincar na floresta em seus espelhos, fugirão para muito longe. Seus pais, os xamãs, não poderão mais chamá-los e fazê-los dançar para nos proteger. Não serão capazes de espantar as fumaças de epidemia que nos devoram. Não conseguirão mais conter os seres maléficos, que transformarão a floresta num caos. Então morreremos, um atrás do outro, tanto os brancos quanto nós. Todos os xamãs vão acabar morrendo. Quando não houver mais nenhum deles vivo para sustentar o céu, ele vai desabar. (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 6)

Os brancos também deveriam sonhar pensando em tudo isso. Talvez acabassem entendendo as coisas de que os xamãs costumam falar entre si. Mas não devem pensar que estamos preocupados somente com nossas casas e nossa floresta ou com os garimpeiros e fazendeiros que querem destruí-la. Estamos apreensivos, para além da nossa própria vida, com a terra inteira, que corre o risco de entrar em caos. Os brancos não temem, como nós, ser esmagados pela queda do céu. Mas um dia talvez tenham tanto medo disso quanto nós! Os xamãs sabem das coisas más que ameaçam os humanos. Só existe um céu e é preciso cuidar dele, porque, se ficar doente, tudo vai se acabar. Talvez não aconteça agora, mas pode acontecer mais tarde. Então, vão ser nossos filhos, seus filhos e os filhos dos seus filhos a morrer. É por isso que eu quero transmitir aos brancos essas palavras de alerta que recebi de nossos grandes xamãs. Através delas, quero fazer com que compreendam que deviam sonhar mais longe e prestar atenção na voz dos espíritos da floresta. Mas bem sei que a maioria deles vai continuar surda às minhas falas. São gente outra. Não nos entendem ou não querem nos escutar. Pensam que esse aviso é pura mentira. Não é. Nossas palavras são muito antigas. Se fôssemos ignorantes, ficaríamos calados. Temos certeza, ao contrário, de que o pensamento dos brancos, que não sabem nada dos xapiri e da floresta, está cheio de esquecimento. De todo modo, mesmo que não escutem minhas palavras enquanto ainda estou vivo, deixo aqui estes desenhos delas, para que seus filhos e os que nascerem depois deles possam um dia vê-las. Então eles vão descobrir o pensamento dos xamãs yanomami e vão saber que quisemos defender a floresta. (KOPENAWA; ALBERT, 2015, p. 498)

Referências

KOPENAWA, Davi; ALBERT, Bruce. A queda do céu: palavras de um xamã yanomami. 1. ed. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.



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  1. ✨ Novo post de @luciana:“A queda do céu – Não tenho certeza se é dia ou noite; inexplicavelmente está tudo claro, mas a escuridão também…

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